.J027

15 04 2009

Ontem o Pipo foi às Finanças. Não que quisesse mesmo ou não tivesse coisas bem mais importantes para fazer. As Finanças, para o Pipo e para o resto do mundo (excluindo, possivelmente, quem lá trabalha e, mesmo assim, a certeza é pouca), são uma espécie de fatalidade a que não se pode escapar (mais ou menos como o show da Lucy aos sábados de manhã), um bicho papão à espera que a curiosidade nos leve a espreitar debaixo da cama. Continuando a nossa breve história, como o Pipo se atrasou a entregar a declaração de IRS referente a 2007, recebeu em casa uma bela carta a informá-lo que ia ter de pagar uma não tão bela multa. Resignado com a sua sorte, levantou-se cedinho, olhou para a manhã nebulosa, suspirou, queixou-se do mau tempo que o deixa deprimido e lá foi até à repartição das Finanças, sempre a pensar na despesa imprevista e nada bem-vinda.

Qualquer repartição de Finanças é um mundo à parte: é impossível não sermos contagiados pelo espírito de desânimo que impera nas pessoas que esperam, pacientemente, a sua vez; são necessários, pelo menos, dois doutoramento em linguística para perceber o “financês” das placas que nos indicam qual o balcão a que nos devemos dirigir. A isto juntamos a inata e conhecida simpatia da maioria dos funcionários, sempre dispostos a confundirem-nos ainda mais e a mostrarem o quão ignorantes somos nas delicadas matérias financeiras.

O Pipo, assim que chegou, cumpriu o procedimento normal: ficou 5 minutos a olhar para a placa (pontos de interrogação a voarem em todas as direcções), carregou no botão que dizia “IRS”, tirou a senha e verificou, desanimado, que à sua frente estavam 12 pessoas. 10 minutos depois, faltavam ainda 11 pessoas. Vai fumar um cigarro e lembra-se que talvez fosse melhor perguntar se era mesmo ali que poderia resolver a sua questão: azar dos azares, calhou-lhe na rifa uma funcionária que, agora que pensa bem nisso, talvez não fosse mais que uma mera figurante, que o manda para a Tesouraria. Nova senha, 27 pessoas à sua frente. Espera, espera, espera. “J027”, gritam, afinal não é ali, é para o Contencioso, vou já passar a sua senha. Corre, corre, corre, passam todos os ‘J’ menos o 27, uma funcionária (possivelmente débil mental) pergunta ao avôzinho e à avózinha qual é o e-mail da senha, sim o e-mail, sem e-mail não pode fazer nada (o terror da ignorância, nos seus rostos marcados pela vida, seria pista suficiente para qualquer pessoa perceber que e-mail é palavrão que não conhecem). Pela demora percebe que não passaram a senha entre balcões, bufa de raiva e desespero, dão-lhe devaneios homicidas; felizmente é um menino inteligente e não deitou fora a primeira senha, aparece finalmente D012 no ecrã, o simpático senhor diz que não é ali mas vai levar ao colega, passam-lhe a multa, lá se vão as poupanças para o iPod novo.

A vida continua mesmo quando temos menos 124€ na carteira. O Pipo conclui que odeia as Finanças e pensa em motins provocados por anõezinhos mascarados de panda, armados com bastões, tasers e tabuleiros de xadrez.





.easter egg

12 04 2009

this way please

Vagueio, não tenho força suficiente para resistir. Espreito novamente, sem saber porquê, sem saber para quê, sem saber para quem. Fazem-me mal as memórias que não consigo apagar. Tento concentrar-me nesta nova vida que me ofereceram, no dia-a-dia, nas responsabilidades, na confiança dos que se apoiam em mim. Por momentos, faço de conta que esqueci; por momentos, finjo que já não me lembro mais. Mas as memórias são como as ondas, voltam sempre quando menos esperamos. Penso nas escolhas, nas pessoas, nas palavras. As palavras não mentem e magoam, mesmo quando não queremos que o façam.

Invejo (e será que a inveja pode alguma vez ser positiva?) os que têm uma vida simples e desprendida, limitando-se a seguir em frente sem ligar às encruzilhadas do caminho. Poderei, alguma vez, recusar-me a não querer olhar?

Boa Páscoa (o que quer que isso seja)!





.never learn to cry

6 04 2009

“Do memories forget when no one is around”

Tudo acaba um dia. The Rogers Sisters juntam-se a tantas outras bandas que, como uma brisa de Verão, desapareceram sem que a maioria de nós desse por isso (ocorrem-me Tracy+The Plastics e The Organ). “Never Learn to Cry” lembra-me outra vida, em que as lágrimas nunca chegaram a correr, por vergonha ou teimosia, também ela efémera pois as memórias, como as lágrimas, nunca duram para sempre.

“Do yourself a favor and never learn to cry”