.o nevoeiro

30 10 2009

Deixei de ter medo de ser quem sou, revelo-me lentamente ao mundo. Procuro reflexos do meu corpo em almas distantes de traços distintos, ténues como o nevoeiro que se desvanece com o calor da manhã. O silêncio da noite observa acolhedor a caçada que começa, em trilhos escondidos pelo breu da ignorância. Numa clareira perdida, a presa refastela-se com predadores incautos, pela astúcia de quem já nasceu velho.

Podíamos ter sido um em tempos. Sou atraiçoado por memórias que teimam em não partir, por temerem o triste destino do vazio, receptáculo de emoções desprovidas de sentimentos.

É quando o sol desce no horizonte que se revelam as verdades, baixamos os olhos na vergonha silenciosa, que nos permite ser perecíveis sem sabermos bem porque paramos de tentar saber mais sobre a necessidade de nos envolvermos. Sussurras no meu ouvido as palavras que incendeiam o coração, dormente por não bater durante tantos anos.

É da violência que nasce o grito criativo de emoções trancadas a sete chaves, num baú de cristal tão transparente como os teus olhos cor da terra, que se desviam dos meus pelo medo de desapontar quem não se dá a conhecer. As conversas sucedem-se sem parar.





.novos rumos

29 10 2009

Revelas pouco a pouco mais de ti, sem saberes se vale a pena arriscar a tua inocência por uma alma fragmentada, conspurcada pelo tempo e pela vida, escondida durante tanto tempo na sombra de uma existência que nunca foi completamente real.

Sinto nas pontas dos meus dedos o vazio provocado pela tua ausência, as formas de um corpo que ainda não conheci, o cheiro de uma pele que ainda não toquei, o gosto de uma boca que ainda não provei.

O mundo dorme enquanto me ofereces, sem medo, o teu sorriso. Do outro lado do espelho espero, ansioso, que os nossos caminhos se possam cruzar uma vez mais, na areia de praias protegidas por falésias protectoras, conhecedoras dos segredos que oferecemos sem pudor à brisa fria da noite.

Fecho os olhos e sorrio: o futuro, ainda que incerto, começa a fazer mais sentido.

 





.truques

11 10 2009

Não consigo perceber bem qual a razão que me impede de sair e sentir o frio da noite no meu rosto, marcado pela desilusão de um caminho que não tenho a certeza que escolhi seguir. Passo os dias a contemplar o infinito, na esperança de ver, ao longe, uma luz difusa que queira iluminar um trilho ensombrado pela incerteza.

A dor no meu pescoço é mais que física, é símbolo, é sinal, é aviso. Olho para as palavras que escrevo e não me reconheço nelas. Questiono-me acerca do momento em que deixei de sentir este corpo como sendo meu. Será que algum dia existi realmente?

Do ar olho para o mundo e respiro, sem pressas, o caos em que me movo confunde os meus sentidos: vejo os sons, oiço as formas, saboreio os toques.

Faltam-me na manga as cartas certas. Olho para cima e preparo-me: a subida vai ser longa.