Deixaram-me uma carta neste meio virtual que nos faz perder a noção de espaço e tempo. M., as tuas palavras são, como sempre, certeiras, por saberes o que é conviver com uma alma tão dividida como apaixonada, pelo mundo, pela vida, pelo pensamento, atormentada por dúvidas e incertezas, sedenta de saber e querer mais, talvez curiosa demais mas nunca temerosa. Mais uma vez, fizeste-me parar e pensar. Graças a ti decido escrever, desta vez em agradecimento a todos os que, como tu, me deixaram fazer parte da vida deles, pequenos pedaços de existências tão diferentes que, quando agregadas, fazem de mim uma pessoa cada vez mais completa.
Mudei muito nos últimos tempos. Mais do que esperava. Deixei de beber do negrume da minha alma para perceber que é das histórias partilhadas em momentos, sempre únicos, sempre especiais, que me inspiro, que ganho forças para me levantar da cama e sentir a brisa dos dias cada vez mais frios. Olho pela janela e vejo o verde de um jardim que se prepara para dormir. Mas a vida, tal como o tempo, nunca pára, abranda, espera, ganha forças, recupera. Lentamente, enfrento demónios antigos. Sem medo. Percebi, finalmente, que não estou sozinho, pelas palavras, pelos toques, pelos olhares, pela compreensão silenciosa. Quem gosta não julga; quem julga não interessa, não pode fazer parte. Preencho as lacunas da memória com palavras e imagens. Quero registar tudo. Quero lembrar-me de tudo. Quero que os momentos vivam para sempre, em zeros e uns, em fibras de celulose condenadas a perecer.
É no reflexo do vosso olhar que existo de verdade, quando a máscara cai e, despidas de pudores, as nossas almas se encontram.