.os profetas e os cães

Lars Vilks, um artista plástico sueco, desenhou Maomé com um corpo de cão (animal considerado impuro para os muçulmanos), e graças a isso tem organizações islâmicas à perna, que oferecem uma gorda recompensa pela sua morte, e mais uns trocos se lhe cortarem a garganta. Agradável, não? Não é a primeira vez que a publicação de caricaturas referentes à religião muçulmana suscita tais reacções – ainda alguém se recorda dos cartoons dinamarqueses, em 2005?

Vilks ainda tenta aliviar a coisa, dizendo que “um artista americano caricaturou o Presidente Bush como um gato diabólico. E ninguém criticou.”. Pois é, mas todos sabemos que George W. Bush é a mais recente encarnação de Satanás, por isso é que ninguém critica. Já dizia a minha avozinha, quem diz a verdade não merece castigo (por acaso, ela nunca disse tal coisa, mas acho que fica sempre bem num texto umas referências à família…). Se houve coisa que devíamos ter aprendido com os cartoons dinamarqueses, é que os muçulmanos não gostam, definitivamente, que gozem com o profeta deles. Para muitos pode ser falta de sentido de humor, já que esse é o objectivo dos cartoons, certo? Satirizar e fazer rir, na maioria das vezes. Para eles é, novamente, uma grave ofensa religiosa.

Incidentes como estes são graves. Aliás, muito graves. Põem em causa não só a liberdade de expressão, como qualquer hipótese de coexistência pacífica, seja com muçulmanos, judeus, budistas ou qualquer outro grupo, religioso ou não. Se contarmos uma anedota sobre alentejanos, a um alentejano, a probabilidade de ele achar piada é exactamente a mesma de ele encarar aquilo como uma ofensa. Não me interpretem mal, não estou a desculpar ninguém. A censura, e pior, a autocensura, é uma afronta à liberdade de expressão. Mas, se virmos as coisas por outro prisma, também o é expor alguém ao ridículo.

Num prato da balança, a liberdade religiosa, no outro a liberdade de expressão. Dá que pensar, não? Para pessoas como eu, que não são religiosas, este tipo de situações até podem ser encaradas com uma certa leviandade. Ao não regermos a nossa vida por dogmas religiosos, é-nos muito mais fácil aceitar que tudo pode ser questionado. Para quem acredita profundamente numa religião, simplesmente há coisas com que não se brincam. Quando estava na universidade, disse a uma colega de curso que não acreditava na existência de Deus, porque nunca o tinha visto nem ouvido, ao que ela reagiu dando-me um sermão digno do Padre António Vieira (o problema é que eu sou tipo os peixes, a minha memória é de curtíssima duração). Enfim, a lição a tirar disto é que, as pessoas religiosas não gostam, pura e simplesmente, de ouvir que o deus delas não existe, ou de o ver ilustrado de formas que considerem menos próprias.

Tentar impor a liberdade religiosa à base da força e da ameaça apenas beneficia os suspeitos do costume: Bush e os seus Macaquinhos Amestrados™, que à conta disto, lá vão arranjando mais desculpas para uma invasão aqui, outra ali – espero bem que os americanos ganhem juízo até às próximas eleições presidenciais. Quem sai prejudicado? O autor dos cartoons se for apanhado (a menos que haja alguém que consiga provar que viver sem cabeça é, quando muito, uma pequena inconveniência), e todos os muçulmanos espalhados pelo mundo pois, mesmo que não façam mal a uma mosca, já não se livram do estereótipo.

Às vezes acho que andamos todos equivocados: afinal a Idade Média não passou, e as Cruzadas não acabaram.

.p.s. se alguém souber de um link onde estejam os cartoons envie-me, ainda não consegui encontrar.

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