.os livros e as calorias

Posso afirmar com segurança que, se não sou, estou muito perto de me tornar um cliché ambulante. Em português mais ou menos corrente, começo a tornar-me um estereótipo social. Vejamos: ainda não passei do quarto de século (está quase…), sou licenciado e até há bem pouco tempo estava desempregado (neste momento trabalho como freelancer – uma história para outro dia); juntemos-lhe a isto o facto de ser solteiro e podem imaginar as conversas que às vezes tenho que aturar.

Quando estamos a trabalhar, queixamo-nos frequentemente que nunca temos tempo para nada; ironia das ironias, quando estamos sem emprego o tempo chega, sobra e chateia. Ouvi várias vezes, no decorrer dos últimos meses, coisas do género “Ah quem me dera estar sem fazer nada”. Pois. Claro que sim. Passando à frente.

Os primeiros três meses até têm o seu charme: no meu caso, foram divididos entre a procura activa de emprego – candidatura espontânea, resposta a anúncios e, quando a sorte sorria, indo a entrevistas – e a concretização de alguns projectos que deixei pendentes. A partir daí posso garantir que a coisa se complica, e que muitas vezes não há optimismo ou força de vontade que nos arranque da cama. A ocupação do tempo “livre” torna-se um fardo, a impaciência e o desânimo começam a instalar-se. Um facto interessante: como moro por trás do sol-posto, só a partir de Julho deste ano é que consegui ter uma ligação à Internet decente, por isso creio não ser difícil de imaginar o tédio que se instalou na minha vida (contextualizando: estive sem emprego desde Outubro do ano passado, até Julho deste ano).

Felizmente, desde muito novo que tenho uma fórmula mágica para alturas em que necessito de estar ocupado e tudo me entedia: ler. A mera menção desta palavra provoca, na maioria das pessoas que conheço, entre outras coisas, ataques incontroláveis de urticária, espasmos e tonturas. Desde que me lembro de mim como gente que gosto de ler. Livros, revistas, jornais, banda desenhada (que, por muito que os mais puritanos reclamem, é uma leitura tão válida como outra qualquer) e, mais recentemente (viva o progresso rural!), blogs.

Ontem estava a ouvir na Antena 3 o “Conversas de Raparigas” (com a Ana Bola e a Mónica Mendes, sextas-feiras, das 19 às 20 horas), e discutia-se a futilidade das novas gerações e o seu desinteresse pela vida em geral, e voltou-se a fazer referência à resistência dos portugueses em ler. Uma das questões levantadas relacionava-se com a influência dos pais, que deveriam educar as crianças no sentido de estas tomarem gosto pela leitura. Isto fez-me recordar uma conversa com uma colega de faculdade, em que ela me tentava convencer que o gosto pelo cinema dito alternativo era algo que se tinha que cultivar, ou seja, tínhamos que nos obrigar a gostar. Transpondo este raciocínio para a leitura, torna-se então evidente: os progenitores terão que amarrar as suas crias, colocar-lhe um palito nos olhos e arranjar quem vá passando as páginas do “Guerra e Paz” (Leon Tolstói, 1869). Ao fim de uns meses, voilá, temos leitores. Discordo.

Obrigar não resolve nada – uma amiga minha contou-me o caso do marido, cuja mãe queria à força que ele lesse como se não houvesse amanhã, e o resultado é que hoje em dia ele tem, naturalmente, uma aversão aos livros. Lembro-me ainda de uma conversa que tive com amigos meus, que tinham a teoria que as pessoas cultas apenas o são, porque os pais possuem o requisito fundamental de terem educação superior (ah, a universidade e o provincianismo) e serem eles próprios exemplares dignos da “elite intelectual portuguesa”. Lá está, devo ser do contra, porque continuo a discordar.

Outra teoria tenta explicar a maior ou menor apetência para a leitura, defendendo que numa casa sem livros é pouco provável que se “produzam” leitores. O acesso fácil à leitura pode ser um incentivo. No entanto, até que ponto será esse o factor fundamental? Cá em casa, os primeiros livros de que tenho memória são “Obras Completas Vol. II – Teatro e Cartas” de Luís de Camões (não faço a mínima ideia da data de publicação e editora, pois a primeira página foi destruída pela minha irmã mais velha que, não contente com isso, ainda se dedicou a acrescentar arabescos a lápis e a caneta pelo resto do livro), “Constituição da República Portuguesa” (2ª Revisão, 1989, Imprensa Nacional da Casa da Moeda, Lisboa), “25 projectos de vivendas modernas” de Francisco Lopez Árias (s.d., Plátano, Lisboa) e “Orçamentos para a construção” de F. Alvarez Martinez (1978, Plátano, Lisboa). Com excepção do livro de Camões, os restantes não me poderiam interessar menos, pelo que nunca lhes peguei, a não ser para fazer a inevitável limpeza às estantes. Não tendo muitos livros nas estantes, como se explica que me tenha tornado um leitor ávido? Aliás, a única máquina de devorar livros da família. O segredo é simples: nunca negar o acesso a um livro. Os meus pais podem nunca ter sido grandes adeptos da leitura, mas sempre reconheceram que era algo importante para mim, e sempre o incentivaram, e penso que isso é talvez o mais importante. Se vimos que uma criança se entusiasma com um livro, porque não oferecer-lhe um?

Olho para a estante, e vejo alguns livros que me serviram de base de estudo na universidade. Foi o meu pai que mos comprou, e mesmo depois de ter desembolsado 110€ por um deles, e eu ter reclamado que da próxima vez tirava fotocópias ou requisitava na biblioteca, continuou a defender que um livro é um investimento para a vida toda. Presenciei há pouco tempo, numa loja de roupa, uma cena cada vez mais frequente para pais que têm filhos adolescentes: uma mãe pagava a exorbitância que se pede hoje em dia por roupa, satisfazendo o capricho da filha adolescente. A senhora, contrafeita, lá passou os cheques e, em jeito de chalaça, lá avisou que só daí a uns meses é que voltavam lá. Questiono-me se, num futuro próximo e colocando a hipótese que a filha irá para a universidade, terá a mesma disposição para lhe comprar livros, seguindo a teoria do meu pai do investimento para a vida toda.

Sigo com algum interesse estes debates ocasionais sobre a falta de hábitos de leitura dos portugueses. Não há consenso, nem uma resposta possível. Será culpa dos pais, do Governo, dos professores ou da gripe das aves? Acima de tudo, considero que o gosto pela leitura é algo natural, que se treina com os anos – tal como a capacidade de desenhar, de escrever ou de falar. Exige, acima de tudo, algum tempo. Mas ninguém diz que temos que ler 800 páginas em dez minutos. Todos os sítios são válidos: na cama, antes de irmos dormir, nos transportes públicos, em salas de espera ou em cafés, quando esperamos pelos amigos. Se demoramos meses a acabar um livro, o que é que isso interessa, isto não é uma maratona. A leitura tem vantagens óbvias, para além da ocupação do tempo: ajuda a enriquecer o vocabulário, a conhecer outras culturas e modos de vida, estimula a imaginação e, vejam bem, segundo uns estudos estranhíssimos que li algures, até emagrece (isto duvido, mas se servir como incentivo, desculpem-se a incerteza científica).

Não sei se repararam, mas apenas referi, propositadamente, que ler exige tempo. E dinheiro, perguntam? É necessário algum, respondo eu. Mas apenas se quisermos ter os livros para futuras referências, para enfeitar a estante ou qualquer outro uso (uma professora minha disse uma vez que usava um livro utilizado na disciplina que leccionava, para elevar o filho até à mesa, já que a cadeira era demasiado baixa, e a criança assim não conseguia – penso que estava a brincar, mas lá está, o livro é dela e pode fazer o que bem lhe apetecer com ele). Para quem não quer gastar dinheiro em livros, existem várias opções. A mais óbvia é pedir a um amigo que lhos empreste – apenas convém devolvê-los nas melhores condições possíveis (nunca volto a emprestar livros a quem mos entrega todos desfeitos – não me acontece muito, a malta sabe que tenho um mau feitio tremendo e que estimo muito os meus livros). Outra opção consiste em requisitar livros em bibliotecas. Apesar de nem sempre terem tudo o que queremos, são gratuitas e os prazos de entrega costumam ser alargados e podem ser renovados, desde que não hajam reservas – mais uma vez, convém entregar os livros em boas condições (acho péssimo sublinharem passagens, ou tomar notas em livros de biblioteca).

Pronto, já tentámos os amigos e as bibliotecas. Mesmo assim queremos mais livros, mas continuamos a não querer gastar muito dinheiro. Também aqui temos várias opções. Uma é comprar uma revista, ou um jornal, que traga um livro gratuito, ou com um preço muito baixo – esta é a minha preferida, já que é o verdadeiro dois em um, pois nalguns casos não é necessário pagar mais nada pelo livro. Outra é estar atento às promoções que vão aparecendo nas livrarias, ou nos hipermercados – o único problema, principalmente nos hipermercados, é que muitas vezes não se consegue achar nada de jeito. Recentemente, descobri a editora Saída de Emergência, especializada em géneros menos comerciais, como a literatura fantástica ou a ficção científica (oh que pena para o mundo, que alegria para mim!), que apesar de praticar os preços esperados para um livro, oferece a possibilidade de adquirir obras divididas em vários volumes, em packs a preços muito apelativos. Podemos ainda adquirir livros a preços baixos em feiras de rua, lojas especializadas em velharias ou, a minha última descoberta, nos Correios (comprei ontem, por cinco euros, “A tomada do poder” de Czeslaw Milosz [1987, Dom Quixote, Lisboa]).

Um último apontamento relativo a esta questão da leitura. Não existe a boa e a má leitura. Existem autores que escrevem melhor que outros, autores que tratam de assuntos mais profundos, outros de assuntos mais superficiais, autores tão densos que ninguém percebe – mas ninguém pode tentar impor que são melhores ou piores. Uma vez, em conversa de café, tive o azar de dizer que considerava “O Código DaVinci” [2004, Bertrand] literatura “light”…e foi o descalabro, porque as pessoas com quem estava eram (e penso que continuam a ser) fãs do Dan Brown, e ficaram super ofendidas, respondendo qualquer coisa tipo: “Light??? Mas o livro tem 540 páginas!!!”. Pois…mas um livro não é um iogurte ou um refrigerante, lá porque tem mais páginas, não quer dizer que seja literatura de “peso”. O meu objectivo não era ofender ninguém, nem criticar as escolhas literárias dos outros. O livro está bem escrito, a história é interessante, mas lá está, é um tipo de ficção que não muda a vida de ninguém – é isto que considero como literatura “light”.
[nota breve: o que mais me chateia, relativamente ao Código DaVinci, é que ainda existem pessoas que estão convencidas que aquilo é a mais pura das verdades, e que ainda não se aperceberam que não leram o livro porque era uma grande obra da literatura, mas simplesmente porque teve associado a si uma poderosíssima máquina de marketing – da qual também fui vítima, confesso].

Outro local, outra conversa. Ao fazer referência a este episódio, disseram-me algo que começo a ter como verdade fundamental: “Light ou não, ao menos que leiam”.

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