.o outro pé da sereia

Uma das coisas que me chamou a atenção quando peguei pela primeira vez no livro “O Outro Pé da Sereia”, de Mia Couto (Editorial Caminho, 2006), foi a intercalação, ao longo do livro, de páginas impressas em diferentes papéis. Folheando com mais atenção, reparei ainda que a mudança de papel implicava também uma mudança no tipo de letra – representado esta alternância diferentes momentos da narrativa. Como fiquei curioso, acabei por comprar e ler o livro – este fenómeno acontece-me com os cds de música, muitas vezes pego neles porque acho a capa apelativa, é mesmo pena que tantas vezes o interesse se desvaneça assim que os oiço. Mia Couto passa agora a ter um lugar de destaque na minha biblioteca pessoal, e no futuro gostaria de ter a oportunidade de ler outras obras dele.

“O Outro Pé da Sereia” é um romance fabuloso, escrito numa linguagem muito acessível, que nos conta várias histórias que, aparentemente independentes, acabam por se revelar intimamente ligadas: a de Mwadia, a quem é dada a oportunidade de regressar à sua terra natal, para cumprir o que, à partida, seria uma tarefa simples; a de D. Gonçalo Silveira, missionário português que parte de Goa para a África Oriental, com o objectivo de evangelizar os reinos africanos; a de dois afro-americanos, que pretendem reencontrar em África as suas raízes. Paralelamente a estas, e a outras histórias que nos vão sendo apresentadas ao longo da narrativa, temos um elemento comum: uma estátua de Nossa Senhora, elo de ligação entre o passado e o presente, entre o sagrado e o profano.

As saudades do passado são um tema recorrente ao longo do romance, e uma das características mais marcante em todas as personagens: à medida que vamos descobrindo a sua complexidade, deparamo-nos com a sua insatisfação perante o presente, sentindo que a vida passou por elas a correr, e os seus sonhos e objectivos ficaram algures pelo caminho. Paralelamente, e quase indissociável, surge a religião, apresentada em duas perspectivas distintas. Formal, austera, dogmática e inibidora, representada por D. Gonçalo Silveira e pela sua visão do mundo reduzida aos preceitos do cristianismo; natural, inocente, espontânea e potencialmente mais perigosa, personificada pelo escravo Nimi Nsundi e pelos habitantes de Vila Longe – através deles, o cristianismo é-nos apresentado interligado com as antigas crenças africanas de forma tão natural, que nos faz pensar no que será mais importante, o nome ou a essência daquilo que rege e sustenta a crença religiosa (a estátua de Nossa Senhora carrega consigo essa dualidade religiosa: representa em simultâneo a imagem da mãe do Messias, e Kianda, a sereia, a deusa das águas – o que nos leva à conclusão inevitável de que a religião, como tudo na vida, tem incorporada nos seus princípios básicos uma dose maciça de relatividade).

O pensamento filosófico é constante ao longo de todo o romance. Sob a forma de senso comum, por vezes despropositado, mas sempre com uma base lógica irrefutável [“No intimo de si, Mwadia sabia: quem se lembra de tudo é porque não espera mais nada da vida”], e através do idealismo estruturado do Barbeiro de Vila Longe, antigo revolucionário, cujas citações nos vão sendo apresentadas no texto da narrativa, e por vezes no início de um capítulo [“Eis a nossa sina: esquecer para ter passado, mentir para ter destino”] – sendo a figura do Barbeiro a antítese perfeita do empresário Casuarino, a personificação perfeita do materialismo, cujo objectivo é enriquecer às custas de uma África que já não existe.

Termino com duas sugestões: leiam o livro, e leiam o livro.

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