.os meninos que não brincam

As altas autoridades da pedopsicologia voltaram, mais uma vez, a erguer a voz em defesa das crianças. É verdade, novo motivo para crucificar os pais.

Depois de terem sido confrontados que as crianças não são mal educadas e mimadas, mas hiperactivas; que terem demasiado tempo livre é mau, logo toca a ocupar o tempo do(a) menino(a) com actividades extra-curriculares (ténis, natação, judo, aikido, tiro aos pratos, 4×4 e por aí fora); que afinal elas mal tinham tempo para respirar e serem crianças, porque os cruéis dos pais lhes tinham preenchido a agenda com não-sei-quantas actividades (os monstros insensíveis – ainda bem que nestas situações há sempre uma sumidade em pedopsicologia atenta que vai à televisão denunciar a tirania da entidade paternal), parem tudo, porque os papás e as mamãs portuguesas não brincam o suficiente com os seus rebentos.

Porquê? Os degenerados dos pais dizem que entre ir pôr os meninos à escola, trabalhar, ir buscar os meninos à escola para os ir levar às actividades (poucas, para não traumatizar), ir ao supermercado, ir buscar os meninos às actividades para irem para casa, ajudar nos trabalhos de casa, controlar se os conteúdos da televisão e da internet são adequados, servir o jantar, pôr os meninos a dormir e contar, pela milésima vez a história da menina-idiota-que-tinha-a-mania-que-era-rebelde-e-foi-comida-pelo-lobo, e ainda tentar ter uns momentos de intimidade com o(a) companheiro(a), ufa, fiquei sem fôlego. Onde é que ia? Ah, as crianças. Sim, resumindo, não brincam tanto quanto gostariam com os filhos, porque têm pouco tempo.

Usam a desculpa que o trabalho lhes rouba o precioso tempo de qualidade que gostariam de dedicar aos seus rebentos – citando Catherine Tate “The dirty robbing bastards”. Apenas lhes resta o fim-de-semana, o que não chega, segundo os entendidos. Lá está a minha teoria, os males do mundo são todos originados por esta mania moderna que temos que trabalhar. Infelizmente para as pobres crianças, ainda ninguém descobriu como pagar a comida, a casa, o carro, o telemóvel, o jogo novo para a Playstation, e a Barbie Veterinária-Modelo-Princesa-com-carro-e-amigas-e-namorado-que-provavelmente-é-gay, sem dinheiro. E esse, ironia das ironias, só chega à conta bancária após um árduo mês de trabalho. Claro que podiam sempre roubar um banco (ou uma caixa multibanco), mas depois se fossem apanhados, seria pior para as criancinhas – imaginem como é que elas explicariam na escola que afinal os pais não estão num retiro espiritual em Katmandu.

Logo, elas vão crescer revoltadas e, muito provavelmente, quando chegarem aos quinze vão tentar retalhar os pais com uma motosserra, tudo porque ficaram traumatizados, e não é saudável reprimir as coisas. Mais uma vez se prova: se vivêssemos do ar, tudo seria bem mais fácil. Sarcasmo e ironia à parte, deviam proibir a divulgação destes estudos idiotas, que mais não fazem do que complicar a árdua tarefa que é ser pai hoje em dia.

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