.seremos todos anormais?

Começa hoje na RTP2 a quarta série de “the L word“. Para quem não conhece, a série retrata a vida de um grupo de mulheres lésbicas/bissexuais, que vivem em Los Angeles, e dos que as rodeiam (amigos, parentes, amantes). Tenho acompanhado a série desde o início e aconselho vivamente, mesmo para aqueles/as que ainda tenham preconceitos relativamente a orientações sexuais ditas “menos convencionais” (pela sociedade em geral). Porque o universo destas mulheres (e de alguns homens) não é assim tão bizarro como os mais conservadores poderão pensar – amam, choram, sofrem, respiram, enfim, vivem como todas as outras pessoas.

Ontem, no último episódio da terceira série, uma das minhas personagens preferidas, Jenny* (Mia Kirshner) conversa com o namorado Max (Daniela Sea), um transexual-anteriormente-conhecido-por-Moira, no bar dum hotel canadiano onde as amigas Carmen* (Janina Gavankar) e Shane (Katherine Moenning) supostamente iriam casar (o que não aconteceu), e este diz-lhe que não acha bem que ela e uma amiga (que conheceu nesse hotel, e com a qual já havia passado alguns momentos tórridos…) dancem ali, pois sendo um bar heterosexual, as pessoas ficariam constrangidas. Ao que ela lhe responde que isso não lhe deveria interessar a ele, pois tudo o que os outros têm feito é deixá-lo constrangido, principalmente quando descobrem que afinal ele é ela.
\*rrrrrrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaauu/

A personagem Moira/Max é extremamente fascinante do ponto de vista psicológico. Por um lado, passa pela experiência comum aos transsexuais de não se sentir bem no corpo que tem – daí fazer o possível para ter o “corpo certo”. Por outro, vê a sua mudança como a última oportunidade de se integrar na sociedade, e de viver uma vida normal. O que implica que Jenny não poderá ser mais a sua namorada, pois esta orgulha-se de ser quem é, e, talvez mais importante, do facto da sua diferença fazer dela quem é.

Este pequeno diálogo fez-me pensar de novo numa questão que me atormenta há anos: o que é normal e o que é diferente? No campo da orientação sexual os critérios são numerosos, e penso que o único minimamente acertado na definição de normalidade é o biológico, pois a Natureza deixou bem explícito que a perpetuação da raça humana apenas pode ser alcançada pela união homem/mulher (que bonita esta expressão, hoje sinto-me politicamente correcto! – num dia normal escreveria qualquer coisa como “… pode ser alcançada pela bela da queca …”, mas ainda bem que hoje não é um desses dias) – é claro que o ser humano, engenhoso, já arranjou maneira de dar a volta à questão, e de mandar as leis naturais dar uma curva. Tudo é resto é relativo – vejamos os critérios religiosos, por exemplo: se os grandes profetas fossem homosexuais, seriam os heterosexuais a serem “diferentes”?

A palavra que melhor define esta problemática é rótulo. O ser humano adora rótulos. No fundo, o nosso desejo mais íntimo é reencarnarmos sob a forma de uma embalagem de detergente, onde todas as informações estão ali, bem à vista de quem nos pega. Em todo o lado, e por todos somos rotulados: relativamente ao que vestimos, à música que ouvimos, aos filmes que vemos, aos livros que lemos, à cor da nossa pele e às pessoas que escolhemos amar.

Neste contexto da dualidade normalidade-diferença, podemos até criar alguns estereótipos:

1. os normais-normais: seguem uma vida dita normal (o que se aplica a heterosexuais, que se casam, têm filhos, emprego fixo, vida financeira estável, e quando se reformam e os filhos já estão encaminhados na vida,participam em cruzeiros para a terceira idade), e aceitam as diferenças dos que os rodeiam (poucos, muito poucos);

2. os normais-com-esqueletos-e-outras-coisas-esquisitas-no-armário: também seguem uma vida dita normal, e suspiram pelo tempo em que os comportamentos “condenáveis” davam direito a linchamento público(mas às escondidas lá vão dando uns pontapés à moral e aos bons costumes);

3. os diferentes-reprimidos: no fundo morrem de medo que os outros descubram que, lá no fundo, não são assim tão normais como isso. Por isso, fazem um esforço sobre-humano para que ninguém repare nisso;

4. os normais-que-morrem-se-não-forem-diferentes: assumem-se como diferentes, esforçam-se para que os outros reconheçam a sua diferença,mas de tanto se esforçarem começamos a desconfiar que talvez sejam mais normais do que pensam – nunca conheceram ninguém que tenha comprado roupa ou feito um penteado mais extravagante, e que tenha ficado desolado à primeira crítica? Quando estava na universidade conheci pessoas cujo aspecto e postura mudava assim que entravam no autocarro que as levaria para o aconchego do lar paterno durante o fim-de-semana. Normalmente, quando não conseguem assumir a tão desejada diferença, tendem a tornar-se diferentes-reprimidos.

5. os diferentes-diferentes: gostam de quem são e ponto final. Não pretendem chocar ninguém, mas defendem aquilo em que acreditam com unhas e dentes. Como os normais-normais, aceitam as diferenças dos outros, e têm ainda em comum o facto de terem presente que são essas diferenças que tornam cada indivíduo único e especial. No fundo, se o mundo fosse um lugar cor-de-rosa, não haveriam normais-normais ou diferentes-diferentes, apenas pessoas. Atenção que aqui o factor diferença não está exculsivamente relacionado com a orientação sexual, mas sim com uma postura na vida que os diferencia dos restantes.

Tenho plena consciência que, como todos os estereótipos, os que criei são bastante estúpidos, reduzindo a pouca linhas a complexidade própria do ser humano. Mas, se pensarmos bem nisto, aposto que conhecemos pessoas que se enquadram nas minhas descrições, algumas quase na totalidade, outras parcialmente.

Se alguém se lembrar de novos perfis, não se acanhe. Por hoje chega de divagações existencio-sociológicas. Vou jantar, enrolar-me num cobertor no sofá, ler e esperar até à 00h30 pela estreia da nova temporada de “the L world”.

2 thoughts on “.seremos todos anormais?

  1. Epa, não entendo a das orientações sexuais “menos convemcionais”. Se existem, e parece que em grande número, porque não chamá-la de orientação sexual. (ponto) Existe mais do que uma, daí o termo orientação sexual, portanto parece-me que é suficiente.
    Ai maroto…

  2. Ironia, meu caro, ironia. Isto do que é, ou não, convencional, é mais do que relativo, e depende de numerosos factores. Mas a tua linha de pensamento tem a sua lógica. Porém, e talvez mais importante, como é que definimos a fronteira entre o que é ou não normal?
    Abraço

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