.as crianças são o futuro da nação, tenham medo, tenham muito medo

O eskisito fala-nos das dificuldades sentidas ao ensinar a umas quantas alminhas tenras um exercício (em princípio simples), do silêncio, do desânimo que é ensinar em Portugal. Já li e já comentei. Mas a ideia não ficou arrumada. Quando se discute o estado do ensino em Portugal, a palavra culpa está sempre presente. E a culpa é tipo batata quente: os professores passam aos pais, os pais aos professores, os professores ao Ministério, o Ministério aos pais, e por aí fora. Normalmente, só os alunos ficam isentos de queimaduras. Como é comum na resolução de um problema complexo, decidi separá-lo em componentes mais simples, considerando o papel que as variáveis professor, aluno, pais e Ministério têm no resultado final da equação ensino.

Variável Professor e Pais (nº 1 e nº 2)
O papel do professor têm mudado muito ao longo dos anos. Quando iniciei o ensino primário, a minha professora acumulava as funções ensino+educação, algo que cada vez mais tende a desaparecer. Ensino e educação não são, nem nunca deverão ser sinónimos. A D. Natividade (um grande bem haja, se bem que duvido que ela ocupe o tempo da sua reforma a navegar na blogoesfera), que ainda hoje em dia faz questão de parar na rua para saber como é que vão as coisas, não me ensinou a ler, escrever ou contar, porque isso já sabia – a leitura foi instintiva, e o resto tenho de agradecer à minha irmã mais velha, que já mostrava os seus futuros dotes como professora. Ensinou-me o resto, as operações aritméticas, os nomes dos rios, onde é que ficava a Beira Baixa e o Alentejo (o Algarve já sabia, o meu pai trabalhava lá!), porque é que algumas casas eram feitas de xisto e outras caiadas. A parte educativa era, para ela, indissociável: respeito, cidadania e religião foram conceitos incutidos desde cedo (este último tinha dispensado, desde que me lembro nunca liguei ponta à parte religiosa, mas fica registado o esforço). Questão para os leitores do segmento masculino: quantos de vocês sabem coser um botão? Eu sei, com muito orgulho, e foi ela que me ensinou. Para um colega com pretensões machistas, que achava que isto de coser meias e botões era coisa de mulheres, uma resposta simples: “se não tiveres uma mulher que te faça isso, vais andar todo roto, e com os botões a cair?”.

Os tempos mudam, e são poucos os que hoje se prestam a tais trabalhos. Talvez porque os que se atrevem correm o risco de ter de aturar os pais, melindrosos, que consideram qualquer comentário como uma crítica à sua capacidade (ou falta dela) de criar os seus rebentos. É algo muito estranho: simultaneamente, ambos têm e não têm razão. Os pais têm como papel educar os filhos, os professores ensinar os alunos e complementar a educação que lhes é (supostamente) dada em casa. Na falta dela, o que deverão fazer? Já aqui escrevi sobre isso, e sou solidário com a maioria dos pais que se sentem confusos com a quantidade de barbaridades quase diárias divulgadas pelas sumidades em educação e pedagogia. Certamente que muitos pais terão sido vítimas dos abusos disciplinares de outros tempos, e não querem que os seus filhos aprendam à base da paulada – a mítica régua/cana. E é compreensível que queiram compensar a possível falta de afecto ou atenção (ou ambos) que não lhes foi dada. Totalmente solidário. Mas não às custas do sacrifício de outros, os tais que aturam rasgos de má educação e despotismo infantil/juvenil.

Não é uma questão fácil, esta. Mas para todos os que apontam o dedo ao professor que castiga/disciplina, ou pelo menos tenta, aconselho um exame de consciência: se forem chamados à escola porque o(a) vosso(a) filho(a) chamou um nome menos próprio ao professor, ou lhe tentou enfiar o lápis no olho, se ele o(a) castigou, talvez devam tentar explicar ao demónio-miniatura que isso não se faz, ou como defende o pobre do Rui Zink, corajosa e publicamente, dar-lhe a bela da palmada. Ou será que isso acontece em casa e ainda aplaudem? Um exemplo, triste e real: na escola primária perto de minha casa, uma criança com seis anos, da mesma turma que a minha prima, decidiu andar atrás dos colegas com uma tesoura a dizer que os matava a todos. A professora, uma senhora a caminho da reforma, e que devia estar preparada para estas coisas, ESCONDEU-SE ATRÁS das crianças aterrorizadas. Leram bem. Não tentou tirar a tesoura ao estafermo do garoto, nada, limitou-se a esperar que o serial killer em potência furasse um dos colegas; quando confrontou os pais, ainda foi pior, porque eles recusaram-se a acreditar que o seu demónio-disfarçado-de-anjo tivesse feito tal coisa. Acham isto normal? Eu não.

Demónio nº 3 (ups, queria dizer variável Ministério)
Eu admiro os professores pela maleabilidade demonstrada face às sucessivas reformas que o ensino português tem sofrido. Primeiro, porque as anedotas que vão surgindo só podem ser provenientes de mentes brilhantes que não devem ver um quadro, ou lidar com alunos, desde o ano de estágio. Sendo bonzinho, claro, e considerando que estas pessoas têm efectivamente alguma experiência de ensino. Depois, pela mensagem que essas reformas transmitem aos alunos: para quê estudar, se já sabemos que até determinada altura (actualmente, continua no 9º ano? Com tanta reforma, às tantas a malta já têm o canudo à nascença, e eu sem saber), os professores são obrigados a passar os alunos? Os alunos não estudam, mas passam. Os alunos até poderiam faltar, mas passavam à mesma (esta teria sido a cereja em cima do bolo).

Outra vez a questão da educação. Em teoria, os pais deveriam mostrar aos filhos que tudo na vida exige esforço e dedicação. Partilho convosco a técnica dos meus pais: dialogar. Hã, simples não? Agora que vem aí o Natal, expliquem que só podem comprar a Playstation 3, se deixarem de comprar comida, por exemplo. Se no boletim de notas aparecem umas quantas negativas, e já estão a gastar uma fortuna com explicações, talvez seja boa ideia cortar alguns previlégios – e se estivermos a falar de pré-adolescentes/adolescentes, não amoleçam, eles só vos vão odiar até à próxima semana, altura em que vos voltarão a odiar porque lhes foi recusado outro capricho (hormonas e confusão, é tão simples como isso). Mas como explicar às almas juvenis esta coisa do esforço/dedicação se, como disse, a mensagem subliminar é mais do género “curte a vida, que nós fazemos com que entres à mesma na universidade, e assim mostramos aos estafermos dos nórdicos que também somos letrados!”.

Um bocadinho mais atrás, deixei escapar que a minha irmã mais velha é professora. Ela, que queria entrar em Direito, acabou por ir parar a História e no final, seguindo o conselho dos colegas mais velhos, que a alertaram para a inexistência de investigação em Portugal, seguiu a via de ensino. Surpresa das surpresas, acabou por gostar. Apesar da minha opinião poder parecer dúbia, considero-a uma excelente profissional, e acarreto a esperança que hajam muitos como ela por aí. Falo de todos os que chegam a casa e vão preparar as aulas, mesmo tendo já apontamentos de outros anos, dos que continuamente procuram novas formas de motivar os alunos, dos que a contra-gosto não reprovam um aluno que merecia ser retido, de todos os que se esforçam, no dia-a-dia, por inverter a má opinião que a sociedade tem da classe dos professores. No país em que se sonha com a excelência, é de admirar o pouco que se investe nos ciclos de ensino, e a facilidade com que se arranjam bodes expiatórios.

Mas existem outras cores além do preto e do branco. Existe um ponto em que concordo com o Ministério da Educação: a necessidade de avaliação dos professores. Compreendo a resistência e a desconfiança, afinal não vivemos nós no país do nacional-porreirismo? Talvez ainda venha a ser pior, talvez sejam favorecidos os suspeitos do costume. Ou talvez não. Quem sabe se aqueles que não se esforçam, que escolheram o ensino como último recurso profissional, que tendo mais anos de serviço por mero acidente burocrático, não merecem a devida recompensa pela sua inaptidão. A Ministra da Educação desvalorizou o último ranking feito às escolas portuguesas, que continua a colocar o ensino privado no topo. Nem poderia ter feito de outra forma, pois apenas iria admitir que todo este circo de concursos e colocações não passava disso, um circo, reflexo de uma sociedade apegada aos tostões da Europa e ao conforto da burocracia.

Variável nº 4 ou atreva-se a chumbar o meu filho e nunca mais dá aulas na vida
O título é sugestivo, não? Falemos de um tema tabu. A responsabilidade do aluno no sistema de ensino. Antes de mais, e apesar de pouco provável, na eventualidade de um jovem entre os 6-18 anos parar por aqui, e ainda não ter adormecido, escusam de me tentar ofender, porque eu sei bem a boa vida que é ser estudante, pelo menos até ao final do secundário. Quando tiverem de estudar, ou pelo menos tentar, uma resma de folhas (frente e verso – façam as contas) em menos de três dias, aí poderão reclamar (e sim, aconteceu-me e não morri). Porque é disso que se trata, não é? Reclamar. Porque o professor marcou trabalhos para casa, porque a matéria para o teste é imensa (OH MEU DEUS, QUATRO FOLHAS A4 – só de um lado claro!) ou outras miudezas.

A questão aqui é simples: quem estuda passa, quem não estuda chumba. Claro que isto não é assim tão linear. Directivas para passar tudo à grande e à francesa dificultam um pouco a aplicação deste princípio. Porque no fim de contas, o que interessa são as estatísticas: Portugal tem mais não sei quantos porcento de pessoas com um grau de escolaridade X, do que há 10 anos atrás. Pudera. Porque é que ninguém me ofereceu um livre-trânsito escolar? Tinha poupado imenso dinheiro, e agora já podia andar por aí a viajar. A vida é bela, certo? Errado! Porque depois a coisa piora, e muito: esqueçam os achaques hormonais, as birras porque não vos deram isto ou aquilo, as desilusões amorosas.

O panorama dos alunos portugueses pode ser divido em a) os que seguem o ensino tradicional, ou b) os que decidem seguir a via profissionalizante (também conhecida como cursos profissionais, ou algo do género). Por muito que a toalha quente saiba bem, é necessário distinguir. Os da estirpe a) são, normalmente, os que pretendem seguir estudos superiores, e que talvez melhor do que ninguém, se apercebam mais cedo do significado da máxima inglesa “no pain no gain”. Até podem acabar o secundário à tangente, mas sabem que notas miseráveis impedem aspirações de colocação numa universidade pública de maior prestígio, e mesmo que ingressem no ensino privado, não é o pagamento de uma propina mensal que lhes vai conceder o tão desejado canudo. Acreditem se quiserem, a maioria das pessoas que conheço que estudam em universidades privadas esforçam-se tanto, ou mais, do que as que estudam nas públicas.

A estirpe b) é um fenómeno bem mais interessante. Há uns anos atrás, ir para o ensino profissional era desprestigiante, quase sinónimo de burrice. Actualmente o preconceito tem sido colocado de parte, se bem que ainda tenho as minhas dúvidas. Pelo que observei nos últimos anos, as escolas profissionais, na sua grande maioria, estão sobre a tutela do IEFP, e os formadores são normalmente recrutados por este. E não me façam discursar acerca da inépcia e incompetência que reina neste organismo, senão nunca mais saímos daqui. Tudo isto para dizer, de forma dramática, que a qualidade do ensino irá depender, em última análise, da qualidade do formador, não sendo formador igual a professor, como a maioria dos profissionais do ensino bem sabe. Depois, as directivas pelas quais se regem os cursos profissionais são em tudo semelhantes às do ensino tradicional: reprovação só em casos muito excepcionais. Ou seja, os alunos continuam a ser favorecidos em prol das estatísticas, mas aqui o caso é bem mais grave. Supostamente os alunos que ingressam nos cursos profissionais querem seguir o exemplo dos congéneres europeus: tornarem-se mão-de-obra especializada, ingressarem no mercado de trabalho e contribuirem para o aumento de produtividade do país. A realidade prova a falha no sistema: a maioria dos alunos continuam a não saber um boi de nada e alguns ainda conseguem chegar à universidade, porque a média com que acabam o secundário é infinitamente superior à dos colegas que se esmifram no ensino tradicional.

Estarei a ser injusto? Talvez. Mas há uma coisa que me está atravessada há muito tempo: porque é que todas as pessoas que conheço que tiraram cursos profissionais, quando confrontadas com a realidade do mercado de trabalho, ficam tão surpreendidas por não poderem aceder a cargos reservados a pessoas com um curso superior? E depois ainda me dizem (isto é tão verídico!!!): “mas eu tenho um curso!”. Claro que sim. Mas quem dedicou mais anos aos estudos também, e melhor que o vosso. De quem será a culpa? Dos formadores, que não lhes explicam que não se podem queixar muito, que no final até terão uma equivalência ao 12º ano? Dos centros de emprego, recrutadores destas almas desorientadas, que lhes escondem a triste realidade de que existe à partida um certo número de empregos para os quais não têm competências? Ou será deles, que se aproveitam da ganância política para mostrar resultados, sacrificando a exigência e a qualidade em prol dos números, para alimentarem ilusões de grandeza, tão tipicamente provincianas?

Analisando todas as variáveis em simultâneo concluo que a problemática ensino funciona mais ou menos da mesma maneira que o conceito de desenvolvimento sustentável: para que se atinja o equilíbrio, todas as partes envolvidas devem ser respeitadas em partes iguais. Como atingir esse equilíbrio? Essa é a parte mais difícil, já que exige esforço de todas as partes envolvidas. A pior parte, do ponto de vista social, passaria pela necessária triagem dos profissionais de ensino – por muito que doa, é necessário distinguir quem trabalha e quem tem a sorte de ficar colocado por mero acaso. De um ponto de vista familiar/cultural, as famílias teriam que se esforçar para garantir que antes de apontarem o dedo acusador, o insucesso dos seus filhos não é derivado da sua própria falta de empenho. Por fim, o papão: o Ministério teria que apostar em coordenar as suas políticas com a realidade da sala de aula, e não com a realidade ficcionada dos seus colaboradores, restituíndo autonomia a quem ensina, e deixando de facilitar a vida a quem não quer aprender.

One thought on “.as crianças são o futuro da nação, tenham medo, tenham muito medo

  1. Foi sem dúvida o post mais longo que já li até hoje. E concordo com tudo o que aqui foi dito. E acredito que ainda haja muitos bons professores no mercado e que a avaliação irá beneficiar os bons (se não for feita com outros intuitos). E que isto só vai mesmo resultar se todos nos unirmos em prol do que interessa: formar crianças. Acabar com o deixa-andar e começar a responsabilizá-las pelos seus erros.
    Posto isto, tenho a dizer que tentei uma nova abordagem com a turma que falhou o exercício…resultou que nem ginjas.
    Um abraço e obrigado pelos comentários.

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