.devaneio~01_solidariedade natalícia

O Natal está quase aí: as ruas estão enfeitadas, começa a caça à prenda e à pechincha, a televisão inunda-nos com imagens de brinquedos, bombons e solidariedade servida com o inevitável discurso de irmandade e boa-vontade, com uma pitada de culpabilização, se não dás é porque és má pessoa, se dás pouco é porque és forreta, e por aí fora.

Gosto de receber prendas. Ou seja, assumo publicamente que também sou uma vítima da sociedade de consumo, que o dinheiro que gasto em prendas podia ser aplicado em causas mais humanitárias e que ainda “obrigo” os outros a serem consumistas em objectos de consumo para a minha ilustre pessoa. Contagem decrescente para os sentimentos de culpa, motivados pela publicidade caridosa da época de Natal.

No outro dia, comprei para a minha prima (que tem 8 anos) um conjunto de canetas de cores metalizadas, que são uma treta porque raramente escrevem. As ditas canetas são comercializadas pela UNICEF, o que sempre apazigua o fantasma do consumo enquanto acto inútil. Se o dinheiro vai ou não para a UNICEF, isso já não me diz respeito. Contribuí para uma causa que me sensibiliza, e sempre fiz uma criança feliz.

Por vezes fico triste por não poder contribuir mais. Depois penso que não sou assim tão abonado quanto isso. E, finalmente, chegam-me aos ouvidos as mais diversas histórias acerca dos resultados reais das milhentas campanhas que visam ajudar os mais desfavorecidos: a roupa que não é dada, mas vendida, a comida que se estraga em armazéns, porque não há quem a distribua, desvios de fundos, etc etc etc. Ideias misturadas e servidas com azeitona: contribuo, mas prefiro ter algo que simbolize essa contribuição. Mais: o Natal é a época em que menos contribuo seja para o que for, acho rídiculo todo este circo de solidariedade com prazo de validade.

Quando andava a estudar, eram habituais os peditórios no campus da universidade: “- Vá lá, não custa nada, afinal vocês é que podem e nós não temos nada”. No início de mais uma semana, assolado por um sentimento de boa-vontade, acabei por contribuir para uma causa qualquer; nessa mesma semana, voltaram-me a pedir para contribuir para essa mesma causa. Respondi que não dava, já o tinha feito, ainda por cima uns dois dias antes. Contra-resposta: “- Deste, mas não foi a mim”. Resposta de um amigo que me acompanhava, que também havia caído na esparrela humanitária (é daquelas coisas que nunca mais me vou esquecer, pela naturalidade com que foi dita!):
“- Olha lá, explica-me porque é que vocês só se lembram de fazer peditórios em dias de sol? É que quando está a chover nunca vos vejo por aqui, vocês são espertos, sabem que nesses dias há menos alunos!”. Contra-resposta? Não houve.

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