.o tempo contado

Ouço as risadas, mas não consigo entender a piada cósmica onde me foi atribuído o papel de protagonista. Desabafo feito. Seguir em frente.

(~) Fotografia: Filipe Bernardes

Na semana passada, faleceu a minha tia-avó. Não que isso tenha feito muito mais pela minha existência, que perturbar as minhas preciosas horas de sono. Não me interpretem mal, não sou assim tão insensível, conhecia a senhora desde pequeno, e por muito que não me desse assim tão bem com ela, consigo compreender a dor dos que lhe eram próximos. O problema passa pelo facto de viver num meio relativamente pequeno, e a população ter decidido em peso, durante duas noites seguidas, prestar o seu respeito, condolências ou outras motivações mais/menos dignas. E entre choros e passos, quem ficou sem dormir fui eu.

Motivado por um sentimento de solidariedade, e depois de uma bem conseguida chantagem emocional por parte dos meus pais, lá fui honrar a falecida com a minha presença. E durante umas duas horas, ali fiquei especado a observar o comportamento da malta nestas ocasiões (já a pensar no bem que me ia saber a merecida sesta): uns choram lágrimas sinceras, outros ocasionais, daquelas que se propiciam só quando estão todos a ver (pressão social?).

Dois momentos para recordar: o primeiro, protagonizado pela minha avó, personificação da sabedoria popular, que alto e bom som fez saber que pouco se interessava que o meu avô(irmão da falecida) se sentisse triste, ela é que estava mal, pois ele estava constipado e já há não sei quantos dias que não dormia nada de jeito por causa dele; como podem concluir, sensibilidade e bom senso são termos que não se aplicam à minha excelentíssima avó. A segunda pérola do dia nasceu do brilhante raciocínio de uma velhota que por ali deambulava: “Quem é que será que morre mais este ano? Espero bem que não seja eu!”. Por muito que tente compreender, não consigo de ficar ligeiramente assustado: será que é só isto que nos resta quando chegamos a velhos (ou idosos, ou lá o que seja politicamente correcto dizer!)? Contar os dias e esperar que não sejamos os próximos a ser riscados da lista telefónica?

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