.consciências

Ontem tive a oportunidade de ler um artigo muito interessante, intitulado “A Ética Laboral do Designer”, publicado no The Ressabiator onde, em linhas gerais, se questiona até que ponto o trabalho desenvolvido por um designer está, ou não, isento de moralidade/ética.

“Durante os anos de formação, por exemplo, os designers sofrem uma espécie de “condicionamento comportamental” que efectivamente os cega quanto à natureza industrial da sua própria profissão. Na escola, são treinados para serem profissionais liberais solitários, enquanto no “mundo real” são frequentemente pequenas peças dentro de complexas máquinas empresariais. São treinados para lidarem com clientes que não percebem nada de design enquanto no “mundo real” lidam principalmente com outros designers; os seus patrões são muitas vezes designers, assim como os seus colegas de trabalho. O mito do designer enquanto profissional liberal solitário é uma maneira eficaz de desviar a atenção da estrutura laboral do design que, longe de ser uma abstracção, reproduz tanto dinâmicas e limitações sociais locais, como globais.”

A questão é complexa. Até que ponto é que os princípios ético-morais de um designer podem, ou devem, interferir com o seu trabalho? Cenário possível: a agência X angaria o cliente Y, responsável pela comercialização e distribuição de armas, que pretende uma mega-campanha para maximizar as suas vendas. O trabalho é entregue ao designer Z, que é contra o uso de armas, e recusa desenvolver uma campanha para promover algo que condena; para agravar ainda mais a situação, ele é o único que possui as aptidões necessárias para desenvolver o projecto. Qual a postura da agência? Recusar o projecto, alegando incompatibilidades éticas, ou pensar em arranjar um designer menos complicado? O mais certo, nos tempos que correm, era que prevalecesse a segunda hipótese. Por um lado, temos problemas de consciência que impedem a execução de um trabalho e, em última análise, interferem na sustentabilidade financeira de uma empresa; por outro, até que ponto é benéfico para uma empresa (principalmente na área da comunicação), ser associada a produtos, marcas ou procedimentos conotados negativamente? O cenário apresentado é fruto da minha imaginação galopante, mas poderia ser perfeitamente real. Numa altura em que a informação é difundida tão rapidamente, estas questões são cada vez mais pertinentes, principalmente se tivermos em conta a tomada de consciência acerca dos efeitos nefastos da má publicidade.

Outro assunto que pode ser analisado à luz da ética, diz respeito ao fenómeno de “queima de mercado”, ou seja, à proliferação de profissionais da área de comunicação que oferecem os seus serviços por uma bagatela. Motivados pela necessidade de arranjar trabalho a qualquer custo, nem sequer lhes passa pela cabeça que serão tão prejudicados como os seus concorrentes. Afinal, se alguém faz um site por 100€, um dia mais tarde, quando já tem o prestígio desejado, o cliente lhe deverá passar a pagar 1000€? É um ciclo vicioso difícil de quebrar, exactamente porque existe sempre alguém disposto a trabalhar por menos – ou tantas vezes, por nada.

Mas estas questões não são exclusivas da publicidade/comunicação/design. Vejam o caso dos argumentistas norte-americanos: a luta deles é mais do que válida, afinal se contribuíram para o desenvolvimento das obras, porque não haverão de ganhar com isso? Não será uma questão ética as produtoras reconhecerem e pagarem o esforço intelectual desenvolvido por eles?

Para finalizar, sugiro uma visita ao O Nosso Portfolio, onde nos são apresentados vários exemplos de publicidade desenvolvida em Portugal, e remeto-vos para dois exemplos de comunicação aplicada a questões etico-morais: as campanhas da MTV (luta contra a SIDA, aquecimento global e exploração sexual) e da Acção Animal (direitos dos animais).

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