.deambulações domingueiras

Regra geral, passo os domingos em viagem. Em 394 km, atravesso meio Portugal para chegar ao meu destino e iniciar uma nova semana de trabalho. Longa e cansativa, a viagem é pouco propícia a paragens demoradas: os vales, os rios, os montes, as aldeias e as cidades ficam para trás, num piscar de olhos desaparecem, passando a reflexos nos espelhos do carro, imagens sucessivas de um país que ainda não conheço por completo.

Hoje (ou melhor, ontem, é verdade que ainda não fui dormir, mas já é segunda-feira) decidi inverter a minha rotina domingueira, introduzindo no percurso traçado alguns desvios. Saindo da A24 em direcção a Chaves, a primeira paragem foi na vila de Santo Estêvão (link), tipicamente transmontana, com as suas casinhas em pedra, a sempre presente igreja e uma espécie de forte ou castelo, ainda não consegui perceber muito bem – aquilo é mais uma torre isolada, mas tudo bem, se dizem que é um castelo, quem sou eu para dizer o contrário. As (poucas) fotos da minha (breve) visita terão que ficar para outra altura, foram tiradas com a Colorsplash, logo terão de esperar que vá até algum sítio minimamente civilizado para serem reveladas, tenho de dar a dica aqui por Rebordelo, pode ser que alguém se lembre de abrir um estúdio fotográfico (e antes que se questionem, não, não sou um ogre pré-histórico, sim também tenho uma máquina digital, da qual me esqueci, e sim, tenho um telemóvel que tem a mania que é máquina digital, mas naquele momento nem sequer me tinha lembrado que os telefones só não servem café porque ainda ninuém se lembrou que seria útil). Infelizmente para a minha breve visita, e defeito geral por estas bandas, quando me preparava para mais uma sessão de fotografia artística na torre ou castelo, ou que quer que seja, apareceu um cão gigante que não me inspirou confiança nenhuma, e decidi que seria melhor não comprovar a minha capacidade de maratona – pergunta inocente:porque é que os cães andam todos à solta por aqui?

A segunda visita da tarde foi ao Castelo de Monforte. Antes de mais, é de referir que o acesso está entre o péssimo e o pavoroso: o cruzamento é quase vertical (não recomendando a quem nunca aprendeu a fazer o ponto de embraiagem) e a estrada apenas foi pensada para transitarem carroças puxadas por burros (vejam a foto, coisa mais fofa! Verdade seja dita que burro mais estranho…) ou veículos todo-o-terreno (nunca, e repito, nunca, para veículos ligeiros como, assim de repente, um Nissan Almera comercial).


.o burro


.a subida

Passada a provação que é a subida, deparamo-nos com o mais completo abandono. O que noutros locais seria uma atracção turística com direito a vendedores de gelados e criancinhas aos berros, aqui não é mais que um castelo medieval desprotegido, com direito a parque de merendas como vizinho. Facto interessante é a ausência de sinais de vandalismo (pensando bem, só alguém muito entediado é que se daria ao trabalho de sofrer os horrores da subida para destruir património). Pontos negativos à parte, vale a pena, o castelo está muito bem conservado e a vista é lindíssima. O local é simultaneamente atraente e assustador, recomendado para quem gosta de paz e silêncio e quer uma oportunidade de tirar fotografias com calma e tempo, longe dos atropelos comuns aos locais mais turísticos.


.castelo de monforte [01]


.castelo de monforte [02]


.vista do Castelo de Monforte

Paragem número três. A seguir à Pedra Bolideira, rocha granítica que virou atracção turística, existem umas placas a indicar uma estação arqueológica e uma praia fluvial. Boa sorte com elas, se alguém souber onde ficam que me diga.


.pedra bolideira

No entanto, as minhas voltas e desvios levaram-me a encontrar uma igreja espantosamente macabra numa terra algures no meio do monte – se algum dia se perderem por estes lados, não se sintam desanimados, placas com os nomes das localidades são verdadeiras miragens. O que me chamou a atenção é que, da estrada, não temos a percepção de que é uma igreja, e quando chegamos lá, é impossível não pensar em psicopatas e moto-serras, mais ainda quando descobrimos a pequena torre vigiada por carantonhas esculpidas na pedra e maltratadas pela erosão (desculpas novamente, há que esperar pelo registo lomográfico).


.igreja perdida no meio do monte [01]

.igreja perdida no meio do monte [02]


.torre sinistra

Paragem final. Devaneio. Numa pequena casa à beira da estrada, alguém escreveu que ama muito a Mónica e a Tatiana. Não necessariamente as duas ao mesmo tempo, apesar da tinta usada ser a mesma. Será que o autor do vandalismo romântico foi o mesmo? Certamente que são umas sortudas as meninas, não é todos os dias que o nosso nome é escarrapachado à beira da estrada em letras garrafais, em singelas declarações de amor eterno (ou, pelo menos, enquanto a tinta durar). Particularidade interessante, o amor pela Mónica é, pelo menos, três vezes muito maior. Hipótese, possivelmente absurda (ou não): e se esta tiver sido a forma da Mónica e da Tatiana declararem o seu amor uma pela outra? Quererá isto dizer que a Tatiana ama mais a Mónica, ou simplesmente que Mónica é mais sintética nas suas declarações? Ah, as questões que o amor levanta…


.amor de Mónica


.amor de Tatiana

Quase três horas passadas em descobertas, decidi que era altura de voltar ao meu trajecto habitual e retomar a viagem. Último acontecimento digno de registo (subentenda-se, de fotografia): Marisol, a cabra suicida que queria ser estufada.


.marisol a cabra suicida

3 thoughts on “.deambulações domingueiras

  1. Bom dia!
    Gostei muito desta “reportagem”! Muito, mesmo! Vejo que passas por sítios fantásticos, o que acaba por compensar a maçada do tempo de viagem!
    Além disso, esse tempo dá sempre para relembrar o histórico musical no rádio do carro!
    Saudades. Beijinho
    m.

  2. Agora já ficámos a saber o que andaste a fazer no domingo…lol…jocas grandes, tu sabes quem é…

  3. Gostei da Marisol! Será que a Tatiana também era uma cabra?
    Olha, tenho saudades tuas!
    Beijinho!

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