.a viagem

Acto I
Talvez no meio deste caos todo haja respostas. Nem sempre as coisas correm como queremos, mas podemos tentar melhorá-las. Tenho que ir, chegou quem espero. Ou talvez não, preciso de mudar a graduação. Será que ando a ficar ansioso? Talvez neurótico? Ando a pensar demais, será que isso é possível? Vou aprender a ser paciente. Custa, mas vai ter que ser. Chove, mas não me sinto triste. Vou começar a aproveitar os pequenos momentos, é melhor que nada…estarei a tornar-me masoquista? Continua a chover. A música alta não me deixa ouvir quem me rodeia. Qual será o tema da conversa deles? Amor? Dinheiro? O estado do mundo? A conversa parou. Falou-se do tudo e do nada, continua a chover. Parto. Estava a mais. Há coisas que não valem a pena perguntar.

Acto II
Os quilómetros passam, a fome aperta. Paro. Pessoas estranhas num lugar estranho. Quero chegar depressa. Vou partir ainda mais depressa. Ando sempre em movimento. Chegou, vou, chego, vou. Deixo de ter raízes e referências, tudo passa a ser volátil. O tempo vai passar depressa, já sei. Continua a chover. As pessoas comem e falam. Tossem. Riem. Vêem televisão. Fogem da chuva. Sorriem, não sei bem para quem. Afinal conhecem-se, será que param aqui muitas vezes? Parti com a sensação que devia ter ficado mais tempo. Vou tornar a partir, sabendo que o tempo não chegou. Abana o açúcar, mexe o café, fala. Tenho fome. Continua a chover. Tenho fome. Estou cansado. A minha comida nunca mais chega, será que se esqueceram? Conto os quilómetros e as horas, ainda falta. Paciência, a única virtude que não tenho. Pensando bem, será que tenho alguma? Continua a chover, o céu desaba sobre a terra, castiga e alimenta, destrói, rejuvenesce. A chuva está a parar. A comida deve-se ter perdido no caminho. Talvez se tenha fartado de ser comida. Que pensamento mais estúpido, quase que imagino os pedaços de carne a ganharem pernas, juntando-se às batatas, ao arroz e à salada em revolta e protesto, para mudarem a sua condição de alimentos. A comida chegou. A chuva parou. Em breve, parto de novo. Resisto à partida, saboreio o final da refeição. Vozes nasaladas pedem um pacote de batatas fritas. Do outro lado do mundo, a terra treme, perdem-se vidas. A nós não nos afecta, eu vou partir e a chuva continua a cair.

Acto III
Nova paragem. Bloqueado por um carro avariado atrás de mim, à espera que o reboque o salve. Continua a chover. Tão perto, é sempre assim. Quero chegar a casa e ouvir a chuva a bater na janela. Ainda demora? Já falta pouco, vejo pelo retrovisor, ouço o barulho. Chave na ignição. Preparar. Já falta pouco. Chego a casa, descalço-me, tiro as calças e o casaco, visto o pijama, acerto o relógio, lembro-me dos quilómetros feitos, da música, de dançar na auto-estrada, do cheiro das rosas quando abri o portão, das minhas cadelas a ladrar em jeito de boas-vindas. Mais uma viagem.

Parou de chover.

Santa Chuva by Maria Rita {site oficial}

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