.o tempo

O tempo nunca chega, nunca sobra, não se pode comprar ou vender. Os dias, horas, minutos e segundos são iguais para todos. O tempo é democrático, socialista, equalitário. Não faz distinções de cor, raça ou orientação sexual. Não lhe interessa se somos ricos ou pobres. Passa de igual forma para todos os seres do mundo visível e invisível.

O tempo é um filho da puta ganancioso que nunca dá nada a ninguém. Só tira. Quando o nosso tempo se esgota, não há negociação possível. O que nos resta, então? Memórias de uma vida passada a correr. O tempo deixa a sua marca nas rugas que ficam vincadas no nosso rosto, de rir, de chorar, das preocupações e alegrias. Há quem as queira apagar, mas o tempo é vingativo, arranja sempre forma de nos recordar que, no final, é ele o mestre e senhor da nossa existência.

Tudo na vida tem um preço, excepto o tempo. Tempo é dinheiro, dizem muitos. Mas, digo eu, porque não o podemos utilizar para comprar tempo? O tempo passa e só ficamos com as lembranças: momentos bem passados com a família e amigos, amarguras causadas pela triste condição que é viver contra o relógio, pessoas que amámos, pessoas que nos amaram, pessoas que odiámos e nos odiaram, o que perdemos, os objectivos alcançados.

O tempo espera, na sua poltrona de marfim branco, a paciência é uma virtude que há muito adquiriu. Olha para nós, sorrindo, com um ar quase paternal, perante os nossos esforços patéticos para o dominar. Sabe que não pode ser controlado, apenas aproveitado. Felizes são aqueles que nunca desperdiçaram um segundo na sua vida. Somos tão pequenos como as formigas que pisamos, no nosso corre-corre diário – no final, e só aí, é que nos recordamos disso. Quando somos jovens queremos que o tempo avance depressa; quando crescemos, queremos o contrário, voltar atrás, refazer, melhorar, pedir desculpa, não hesitar. O tempo, esse que tudo vê, continua a sorrir. Será que nos acha patéticos?

One thought on “.o tempo

  1. E se reescreveres o texto no sentido inverso? Se somos nós a roubar ao tempo, se é ele que nos dá tudo e nós deixamos esboroar? E se andamos demasiado atentos connosco mesmos? E se o tempo for demais?

    Não sei…

    Grande beijo

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