.o menino-bailarino que se sentia como a electricidade

Madrugada de 2 de Outubro, a insónia ataca. Nem lhe podemos chamar bem insónia, apenas uma necessidade de ficar acordado até mais tarde, sem razão aparente ou explicação plausível. Continuo a ler “Kafka à Beira-Mar”, de Haruki Murakami, uma fábula moderna sobre personagens impossíveis; leio até me começarem a doer os olhos, talvez seja um aviso para mudar a graduação dos óculos ou apenas o cansaço a dizer que é hora de ir para a cama. Contra toda a lógica, resolvo ficar a ver televisão, na RTP1 passa o Billy Elliot. Nada de novo, fui ver ao cinema e já vi o filme umas quantas vezes. Porque o revejo sempre como se fosse a primeira vez? Não sei, talvez seja a necessidade de querer acreditar que tudo na vida tem solução, de ver a história do menino-bailarino como uma parábola dos tempos modernos, sonhos que se concretizam graças à força de vontade e a um espírito indomável, a vontade de triunfar quando tudo parece perdido. Forço-me a sorrir perante brilhante conclusão, nada mais que o mais velho dos clichés: tudo é possível se nos esforçarmos o suficiente, se nunca deixarmos de lutar. Será que ainda há quem acredite piamente nisto? Acho que, no fundo, todos queremos acreditar que sim. Apesar de nem sempre ser fácil – e há alguma coisa que o seja?

É a nova religião do séc. XXI, o poder do pensamento positivo, resquícios de uma New Age que não pegou, de profetas e moralismos que quiseram fazer de nós pessoas melhores através da contemplação do pior que temos para oferecer ao mundo. Pela minha parte, prefiro mesmo continuar a sonhar acordado, pensar que, sim, tudo é possível, fazer acontecer e esperar que aconteça. Custa-me fechar os olhos e meditar, fico desanimado porque nunca vejo a Luz, Deus, Buda, o Diabo, Nietzsche ou Dante, escondidos num qualquer plano paralelo acessível apenas aos iluminados da Era do Aquário. Talvez, em última análise, o problema seja mesmo meu; talvez a solução seja ficar de papo para o ar, com o Sol a bater-me na cara e o vento a brincar com o meu cabelo desalinhado, a reflectir sobre um tempo que não pára e uma realidade que não muda, por mais que se pense nela. Sim, talvez seja essa a resposta: mas fica para outro dia, hoje está frio.

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