.o cartão de contribuinte

Hoje o dia correu bem. Sim, posso afirmá-lo. Tirando, obviamente, o facto de já andar a fungar e a espirrar, vítima das primeiras constipações sazonais. Como não consigo encontrar uma causa plausível, decido culpar o aquecimento global e estas estações que já não conheço. Enfim, nada que uma boa dose de antigripes e chá não resolva – sim, eu sei, a auto-medicação não é aconselhada mas, como mais de metade da população mundial, só me arrasto até ao médico quando estou naquele estado lastimável, em que arrastar é uma função básica que o meu corpo se recusa a executar.

Acrescento ainda, como razão de não ter tido um dia quase perfeito, os dez minutos perdido em mini-manobras para tirar o carro de um estacionamento, porque um idiota qualquer não se apercebeu que talvez, mas isto é especulação minha, uma margem de manobra de dois ou três centímetros pode não ser suficiente. Já agora, muito obrigado, pela suadela desnecessária e por me fazer acreditar nas minhas capacidades como condutor – deixei uma nota mental: ter folhas soltas no carro (daquelas que usamos para rascunho por sermos amigos do ambiente) para deixar mensagens bonitas como “Olha lá ó camelo, tens o rabo grande, não?“.

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Numa papelaria, dizem-me “Acho que já não temos mesmo essas revistas, rapazinho!“. Ao início, tal intimidade pareceu-me estranha. Por um lado, este tratamento intimista deixa-me desconfortável; por outro, admito que fico ligeiramente lisonjeado. Afinal ainda não pareço assim tão velho, ou então tenho um ar demasiado informal para que me levem a sério. Prefiro pensar que estou mesmo muito bem conservado, e que me manterei assim durante mais algum tempo.

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Chego a casa e a minha prima, que tem 9 anos, agarra num cartão de contribuinte e faz uma pergunta difícil. “Para que serve isto?“. Respondo-lhe “Para as Finanças saberem a quem devem pedir dinheiro.“. Pareceu-me satisfeita com a resposta, dou-lhe o privilégio de permanecer mais uns anos em abençoada ignorância. Preferia que me tivesse perguntado de onde vêm os bebés. A essa sabemos responder sempre, com todas as suas variantes: seja a semente que é plantada pelo homem no corpo da mulher, a cegonha que vem de Paris ou qualquer união estranha entre passarinhos e abelhinhas. Tenho que reconhecer que já não pega, por isso começo a pensar em opções mais adequadas à realidade actual: porque não responder que os bebés são licitados no eBay ou que os escolhemos num catálogo publicado duas vezes por ano?

Confesso, por esta não esperava. Que ela não acredite que usávamos as cassetes para ouvir música (já que para isso temos os cd’s ou o computador) e que me pergunte se duas meninas, numa série juvenil que me recuso a identificar, são namoradas (ficando depois a saber que no futuro, se estiver para aí virada, também poderá ter uma), consigo aceitar e até responder com alguma facilidade. Agora, para que serve um cartão de contribuinte, isso já é demais.

4 thoughts on “.o cartão de contribuinte

  1. Olá! só para dizer que só hoje conheci o teu blog e que estou a gostar… conto voltar, por isso, de quando em vez!
    🙂

  2. tenho que admitir que tenho mesmo muito orgulho em ti, acho que devias publicar um livro de crónicas, tens mesmo jeito e o texto está excelente…de alguém que te adora muito!

  3. Gosto muito do teu blog (:
    Mas queria saber, em pequeno detalhe para que se serve o cartão de Contribuinte …

    Quando tiverem uma resposta, coloquem um comentaario*

    obrigada,
    Ana

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