.veludo azul

Após a massagem, Fernanda dirigiu-se ao seu quarto. A surpresa havia sido preparada pelas amigas: durante um fim-de-semana inteiro, apenas se preocuparia com o seu próprio bem-estar. Afinal, que mais poderia querer uma mulher como ela, gestora de uma das maiores marcas de perfumes do mundo, que um breve período de paz, longe da confusão da cidade e do stress do trabalho?

Assim que chegou ao quarto, dirigiu-se à casa-de-banho. Queria tomar um duche rápido, para se ver livre do cheiro adocicado e enjoativo dos óleos usados durante a massagem. Enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo magro, pensava em “Kafka à beira-mar“, o livro de Haruki Murakami que a mãe lhe oferecera no Natal: na história trágica do rapaz chamado Corvo (que fugira de casa para escapar à terrível maldição imposta pelo próprio pai), no facto de todos termos as nossas maldições, segredos e demónios interiores. “O que diriam se soubessem?”, pensou, enquanto fechava a água e pisava cuidadosamente o tapete branco, recordando-se de uma música que ouvira na rádio durante a viagem – lembrava-se vagamente de a ter ouvido antes, apesar de não se conseguir lembrar onde ou quando. Dirigiu-se à enorme cama e deitou-se nua, de barriga para cima. Com ambas as mãos, começou a acariciar a belíssima colcha de veludo azul, pensando no que diriam os amigos ou colegas do trabalho se soubessem que “toque de veludo” nada significava para ela. Havia nascido sem tacto, desprovida da capacidade de sentir através do toque. Além dos pais e dos médicos, ninguém mais sabia.

Quando era mais nova pensara várias vezes que trocaria, sem pensar duas vezes, a fala ou o gosto, pela capacidade de sentir o suave toque de um lenço de seda ou o pêlo áspero do seu cão. Na adolescência, começou a mutilar-se com lâminas: sabia que nunca iria conhecer a sensação do aço frio a cortar a pele, mas sentia-se reconfortada pela dor das feridas abertas. O passar dos anos levou-a admitir a estupidez dos seus actos e a reconhecer que fazer mal a sim mesma não era a solução que procurava. Aceitou a sua condição e aprendeu a tirar partido das inúmeras qualidades que possuía, transformando-se numa mulher confiante e decidida, chegando à posição confortável que hoje ocupava graças a uma combinação infalível de bastante talento, alguma sorte e muito trabalho. “Fernanda, a Implacável“, chamavam-lhe os colegas do trabalho, quando pensavam que ela já não conseguia ouvir.

Sorriu. Podia não saber o que era tocar numa pétala de rosa, mas distinguia sem hesitar o seu cheiro, mesmo misturado com dezenas de outras fragrâncias. Nunca iria conhecer o seu toque, mas pelo menos já sabia a que cheirava o veludo molhado.

//desafio literário #01: um quarto de hotel, um livro, uma incapacidade e uma música // ver também aqui

2 thoughts on “.veludo azul

  1. Desafio ultrapassdo… e que incapacidade brilhante foste encontrar! Muito bem! Só tive pena de não descreveres a ausência de toque um pouco mais, sendo inesperado, gostaria de tentar saber como seria.
    Fixe… venham mais!

  2. A arquitectura do espaço é imediata… muita côr e ambiente intenso, tipicamente de inverno…
    Estamos a gostar destas “investidas”! Queremos mais!
    Obrigada!
    Abraço

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