.J027

Ontem o Pipo foi às Finanças. Não que quisesse mesmo ou não tivesse coisas bem mais importantes para fazer. As Finanças, para o Pipo e para o resto do mundo (excluindo, possivelmente, quem lá trabalha e, mesmo assim, a certeza é pouca), são uma espécie de fatalidade a que não se pode escapar (mais ou menos como o show da Lucy aos sábados de manhã), um bicho papão à espera que a curiosidade nos leve a espreitar debaixo da cama. Continuando a nossa breve história, como o Pipo se atrasou a entregar a declaração de IRS referente a 2007, recebeu em casa uma bela carta a informá-lo que ia ter de pagar uma não tão bela multa. Resignado com a sua sorte, levantou-se cedinho, olhou para a manhã nebulosa, suspirou, queixou-se do mau tempo que o deixa deprimido e lá foi até à repartição das Finanças, sempre a pensar na despesa imprevista e nada bem-vinda.

Qualquer repartição de Finanças é um mundo à parte: é impossível não sermos contagiados pelo espírito de desânimo que impera nas pessoas que esperam, pacientemente, a sua vez; são necessários, pelo menos, dois doutoramento em linguística para perceber o “financês” das placas que nos indicam qual o balcão a que nos devemos dirigir. A isto juntamos a inata e conhecida simpatia da maioria dos funcionários, sempre dispostos a confundirem-nos ainda mais e a mostrarem o quão ignorantes somos nas delicadas matérias financeiras.

O Pipo, assim que chegou, cumpriu o procedimento normal: ficou 5 minutos a olhar para a placa (pontos de interrogação a voarem em todas as direcções), carregou no botão que dizia “IRS”, tirou a senha e verificou, desanimado, que à sua frente estavam 12 pessoas. 10 minutos depois, faltavam ainda 11 pessoas. Vai fumar um cigarro e lembra-se que talvez fosse melhor perguntar se era mesmo ali que poderia resolver a sua questão: azar dos azares, calhou-lhe na rifa uma funcionária que, agora que pensa bem nisso, talvez não fosse mais que uma mera figurante, que o manda para a Tesouraria. Nova senha, 27 pessoas à sua frente. Espera, espera, espera. “J027”, gritam, afinal não é ali, é para o Contencioso, vou já passar a sua senha. Corre, corre, corre, passam todos os ‘J’ menos o 27, uma funcionária (possivelmente débil mental) pergunta ao avôzinho e à avózinha qual é o e-mail da senha, sim o e-mail, sem e-mail não pode fazer nada (o terror da ignorância, nos seus rostos marcados pela vida, seria pista suficiente para qualquer pessoa perceber que e-mail é palavrão que não conhecem). Pela demora percebe que não passaram a senha entre balcões, bufa de raiva e desespero, dão-lhe devaneios homicidas; felizmente é um menino inteligente e não deitou fora a primeira senha, aparece finalmente D012 no ecrã, o simpático senhor diz que não é ali mas vai levar ao colega, passam-lhe a multa, lá se vão as poupanças para o iPod novo.

A vida continua mesmo quando temos menos 124€ na carteira. O Pipo conclui que odeia as Finanças e pensa em motins provocados por anõezinhos mascarados de panda, armados com bastões, tasers e tabuleiros de xadrez.

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