.recuerdos #02

{as memórias de 25 de Agosto}

Haverá algo mais lisboeta que beber café na esplanada do Parque a ouvir António Variações? Caminhar sozinho é um estado constante, um dado adquirido que já não refuto. Descubro o mundo em silêncio – ou quase, se não contarmos com a música que marca o ritmo dos meus passos, debitada em decibéis controlados nos meus ouvidos.

O vento acaricia gentilmente o meu cabelo, enquanto observo com atenção o empregado a preparar a esplanada para mais um dia, um casal estrangeiro a consultar um guia de viagens e uma senhora já idosa entretida a ler e sublinhar um livro. A copa das árvores escuda-me da cidade barulhenta, aqui o caos, as buzinas e o som de milhares de passadas, que percorrem apressadas a calçada desnivelada, ficam do lado de fora; aqui o verde domina a vista e rasga, sem medo, o azul do céu e o cinzento do betão.

O silêncio é interrompido por um avião que passa – uma excepção à regra, como tantas outras. Começam a chegar pessoas, a cidade começa a acordar – reconheço a minha deixa para voltar a partir. Sozinho, observo e espero. Penso num rosto que não conheço e que apenas vi em sonhos pouco nítidos. O silêncio da madrugada foi rompido, o mundo acordou, o vento, agora mais forte, fustiga o meu rosto desprotegido e tenta arrancar as folhas do meu caderno.

Banda sonora da caminhada matinal: António Variações, Jill Scott, Justice, The Ting Tings, Chicks on Speed, Tiga.

A Estufa Fria está fechada, terei que voltar em Fevereiro de 2010. No fundo do parque, um velhote exercita-se em tronco nú (mente sã em corpo são?).

(*) Saída imprevista a meio da tarde. As chaves novas não abriam as portas, o telemóvel ficou sem bateria, o carregador esquecido bem longe algures em cima da cama – eis a utilidade das listas, evitam que nos esqueçamos destes pequenos pormenores. Na loja da Nokia as pessoas (eu incluído) esperam impacientes (fica aqui a dica: o atendimento poderia ser bem mais rápido e eficaz se optassem por dividí-lo em geral e técnico). No meio da loja um jovem observa com atenção quem chega, nos seus olhos a curiosidade brilha intensa, quase poderia dizer com laivos de raiva – os olhos nunca enganam e a hipótese de ele estar, simplesmente, com uma grande moca, não é assim tão descabida. Próximo de mim, um homem carregado de perfume barato, receita fatal para espaços fechados em pleno Verão, satura o meu olfacto delicado – mais tarde, a memória olfactiva faz-me reviver a naúsea sentida.

3 thoughts on “.recuerdos #02

  1. Já existe, manuscrito e com capa preta (está quase a chegar a chegar ao fim, tenho que arranjar outro fiel companheiro :)). Obrigado M., se um dia houver alguém louco o suficiente para agarrar nisto, serás a primeira a receber o exemplar autografado🙂.

  2. Sim, conheço essa versão. E devia ser algo muito dentro desse género! E, entretanto, café e conversas!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s