.recuerdos #03

{as memórias de 26 de Agosto}

Usada como metáfora para a vida, uma subida é sempre um obstáculo difícil de transpor, principalmente porque as mazelas (uma forma poética de me referir às bolhas nos pés, troféus do dia anterior) relembram-me uma velha máxima do Caminhante: usar sempre calçado adequado. Vagueio, sozinho como habitual, pelas ruas de Lisboa, saboreando a liberdade de poder escolher o meu caminho, de parar sempre que me apetece, do silêncio apenas quebrado pelo pedido de um café ou garrafa de água (devia ser interessante andar a falar sozinho por aí, aposto que a minha popularidade aumentava num instantinho). Há algumas desvantagens, claro: de vez em quando, mas só de vez em quando, sinto saudades de uma caminhada acompanhada por risos ou conversas banais.

Escrevo e olho, ocasionalmente, para o azul do Tejo manchado pelas feias manchas dos turistas curiosos. Há muito tempo que não me sentia tão sereno, a subida até ao Castelo de S. Jorge levou consigo os problemas existenciais, os dramas diários, as preocupações e os cabelos brancos que as testemunham, as desilusões com o mundo e com as pessoas, o medo de falhar, os bloqueios criativos, as mágoas do passado e as esperanças do futuro, as lágrimas que ainda não caíram, as palavras que ficaram por dizer, os murmúrios dos segredos que morrem antes de algum dia verem a luz do Sol. Lá em baixo ficou tudo menos o que é verdadeiramente importante neste momento: Eu. A frescura de uma brisa, ainda que ténue, acaricia o meu rosto suado.

Paguei cinco euros para poder contemplar o infinito. A luz da sanidade bloqueia a loucura momentânea e temporária que me impele a levantar e começar a dançar ao som dos The Ting Tings – um pensamento a considerar, juntamente com o de começar a falar sozinho durante as minhas caminhadas. O meu sossego dura pouco, a minha bolha é invadida por transeuntes que não compreendem o conceito de fronteira – ainda se houvesse falta de espaço…

O mundo parece tão pequeno visto daqui, o sangue da cidade continua a fluir, não sou mais que um insecto curioso em contemplação. Toco nas pedras centenárias e fecho os olhos: ainda que difusas, desfilam na minha mente imagens de vidas atarefadas num mundo de trevas. O encanto desvanece-se, a música guia-me de novo para o Presente. Para uma fotografia ao flautista tirar, uma moedinha temos que dar: este é que a sabe toda, maximizando o lucro através da restrição do serviço prestado. Já lá vai o tempo em que o flautista atraía os ratos com a sua música, agora são turistas, munidos com grandes canhões digitais, prontos a registar em uns e zeros o momento que já passou. Reconheço-me como arcaico, munido apenas com a minha modesta LC-A, sem qualquer garantia que as preciosas memórias das minhas férias não se percam no negrume de um rolo queimado (cruzes credo, é melhor nem pensar nisto!). Do passeio pelas muralhas nasce uma ideia enquanto espero pela sessão no periscópio (digo desde já que vale a pena, sendo uma forma rápida de dar uma volta, ainda que virtual, pela cidade). Paragem estratégica, o calor aperta e os pés começam a queixar-se, fora das muralhas o almoço espera-me na tasquinha recomendada pela Cristina, a funcionária simpática da loja do Museu (os preços da cafetaria do Castelo são impraticáveis).

Coincidência das coincidências, as minhas vizinhas de mesa (literalmente) são designers e trabalham em Comunicação. As pequenas, aparentemente recém-licenciadas/estagiárias trocam confidências acerca das amarguras da profissão: o salário, as horas, o cliente, o budget, o costume. Não estão sozinhas no mundo, minhas caras, a merda muda mas o cheiro é mais ou menos o mesmo. No Eurico, tasca tipicamente lisboeta localizada na Calçada Marquês de Tancos, o ambiente é familiar e os pedidos à Amélia (responsável pelas iguarias que saem da cozinha) gritam-se alto e em bom som. “Ó Amélia grelha aí a cabeça do Zé” – que é como quem diz para grelhar o peixe para o Zé, ou coisa do género. As meninas continuam a queixar-se da vida, felizmente que me retraio e mantenho a minha condição de desconhecido, há uma ou outra barbaridade que poderia ter sido corrigida. A vida no mundo encantado da criatividade é dura, minhas lindas! Os chocos sem tinta estavam uma delícia mas é hora de partir, sigo em direcção ao Chiado, bebo um café e peço à empregada um pouco de fita-cola, o rolo que tenho está invertido e não encaixa como é costume (oh, as alegrias da fotografia analógica). A tinta da caneta marca no papel as ideias que continuam a fluir.

De vez em quando, apercebo-me que não sou tão incógnito como pensava. Uma vibração subtil faz-me voltar, momentaneamente, à realidade, o dever chama. Subo até ao Bairro Alto mas logo me arrependo, parte-me o coração ver a progressiva degradação daquela que já foi, em tempos, a minha zona preferida da cidade, volto costas às paredes sujas e regresso a casa, os pés agradecem a bacia com água quente e sal. Banda sonora do dia: ritmos especialmente escolhidos para uma longa caminhada (hooray, criei uma playlist de propósito para a ocasião!).

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