.recuerdos #04

{as memórias de 27 de Agosto}

O dia começa no LX Factory, fábrica de ideias com ar trendy, temperada com decadência q. b., o novo urbano redefinido por visões de progresso. A tijoleira e o estuque a cair das paredes são o novo preto. O trajecto de hoje leva-me a Belém, na tentativa de recuperar memórias de uma infância já longínqua, das visitas que permitiam testemunhar a grandeza que já foi Portugal. A viagem de eléctrico decorreu sem grandes incidentes, se não contarmos com a senhora alemã cuja mochila ficou presa na porta; tendo em conta que nunca fui grande adepto de me movimentar em Lisboa de autocarro ou eléctrico, tomo nota que, em viagens futuras, convém inteirar-me das paragens que antecedem a minha, ou arrisco-me a ir parar sabe-se lá onde.

Na Torre de Belém, completamente à pinha, respirava-se um ar fétido (digamos que uma subtil mistura entre transpiração e cholé) e a circulação era algo difícil, principalmente nas escadas, acesso único para subir e descer na Torre. A impaciência crescente começou a transformar-se em má educação, e algumas pessoas não perceberam, até ser tarde de mais, que não respeitarem a ordem de subida/descida (definida num entendimento silencioso entre os presentes), apenas resultaria em mais tempo perdido a olhar para a parede da escada em caracol. Não entendo bem estas coisas, as visitas em contra-relógio manifestadas numa sofreguidão de ver, ver, ver, sem parar um segundo que seja para absorver os testemunhos do passado e reflectir nos seus ensinamentos para o futuro. Engarrafamentos à parte, a visita vale a pena pela vista privilegiada tanto para Lisboa como para a Margem Sul.

Depois da visita à Torre, o passeio pelos jardins revelou figuras curiosas: o homem-estátua fantasiado de pirata (bem mais interactivo do que o esperado quando devidamente motivado pelo tilintar das moedas depositadas no chapéu; não há volta a dar, os artistas de rua também necessitam de ganhar a vida), o índio peruano a fazer de conta que a sua pan pipe realmente tocava “The Lonely Sheperd” (tocada por Gheorghe Zamfir e dada a conhecer ao mundo pela banda sonora do Kill Bill Vol. 1), os ciganos que tentam impingir aos turistas os óculos de sol da moda.

George Zamfir | The Lonely Sheperd

Dirijo-me ao Padrão dos Descobrimentos sob o sol ardente demorando mais que o previsto, as docas estão recheadas de sinalética deliciosa que tem de ser registada: o Ektachrome, agora tão raro, é quase exposto na totalidade em menos de um quilómetro. Paragem estratégica para recuperar forças, a frescura da sombra do monumento e meio folhado aliado a um cigarro, é quanto basta para me permitir continuar; pouco tempo depois chego ao Mosteiro dos Jerónimos, a abarrotar como seria de esperar. Vagueio pela igreja e, apesar de não me poder considerar uma pessoa religiosa (o que mais esperar de alguém que ainda não decidiu se é agnóstico ou ateu?), fico sem fôlego perante a sua beleza e tento imaginar o esforço empreendido na sua construção – não há como negar, a fé é uma boa fonte de motivação. Sento-me por momentos e aproveito o fluxo criativo para registar novas ideias; continuo a visita pelo interior do Mosteiro, lentamente, registando em película os pormenores, leio com atenção as palavras de Ricardo Reis gravadas na pedra fria: “Para ser grande sê inteiro; nada Teu exagera ou excluí. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim, em cada lago a lua brilha toda, porque alta vive”. Numa das salas estão expostos os retratos dos reis portugueses e um extenso painel informativo conta aos visitantes a história do Mosteiro, estabelecendo paralelismos com a história de Portugal e do Mundo.

A barriga a dar horas indica-me que a hora de almoço já passou há muito (são quatro da tarde). Seguindo a sugestão do cunhado, dirijo-me ao Pão Pão Queijo Queijo para provar as tão afamadas baguetes gigantes; desânimo dos desânimos, está fechado para férias. Acabo, involuntariamente, por ir parar ao Starbucks. Não sendo a opção mais económica, é a que está mais à mão, a fome não perdoa e o Iced Moka Branco compensa o lanche que devia ter sido almoço. No Starbucks não há Wi-Fi, shame on you símbolo do capitalismo americano. Acho que as meninas espanholas que estão confortavelmente instaladas nos sofás acabaram de me tirar uma foto à socapa, shame on them! Na mesa observa-se o testemunho do amor ao Pedro, de tal forma intenso que mereceu ser gravado a navalha na mesa (já nada é como dantes, com tanta árvore do outro lado da rua). Ainda não sei por que sofre o Simão, personagem trágica criada nas minhas deambulações.

Última paragem: CCB. A arte e cultura ao alcance de todos, muito obrigado Sr. Berardo. Estão disponíveis três exposições: Art Déco e seus Inimigos, Dan Flavin na Colecção Panza e Arriscar o Real – dou especial destaque a esta última, não só por ser a mais extensa mas também por permitir ao visitante viajar pelos diversos registos que marcaram a arte do séc. XX (nomes que despertam a atenção: Peter Hutchinson, Rosemarie Trockel, Gustav Klucis, Jenny Holzer, Sarah Morris, Mel Ramos, Richard Hamilton, Hiroshi Sugimoto, Albuquerque Mendes, Julian Schnabel , Richard Prince, Thomas Ruff, Sigalit Landau, Cindy Sherman e Nan Goldin). Perco a noção do tempo, a alma cansada agradece a contemplação silenciosa. A ventania não me permite saborear o fim da tarde como esperado, retorno à fábrica das ideias num eléctrico apinhado. Uma questão continua sem resposta: o que é que vou fazer com o Simão?

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