.recuerdos #05

{as memórias de 28 de Agosto}

Último dia dedicado às visitas turísticas, a contagem decrescente começa, o retorno à realidade aproxima-se. Desço do Conde Redondo até ao Rossio, a pé como habitual, e dirijo-me à Sé de Lisboa – aprendo que para ir até lá é só apanhar o 28, fica o registo para quando os pés se recusarem a andar mais. Na Sé, sento-me por momentos, observo, registo, visito o claustro com as suas inúmeras capelas, a escavação arqueológica mostra ao visitante camadas de história enterradas que esperam para ver a luz do Sol; penso no que deixaremos aos nossos descendentes, será que o turista do futuro olhará com a mesma admiração para as estruturas de betão, aço e vidro, onde nos movemos pela fé no dinheiro, impulsionados pela necessidade de ter? Subo ao primeiro andar e visito o Tesouro da Sé, que alberga uma grande variedade de relíquias, artefactos, estátuas e manuscritos associadas ao culto de São Vicente, santo padroeiro da cidade de Lisboa.

Os locais religiosos inspiram-me. Talvez por não acreditar verdadeiramente em nada (será que me assumo assim como ateu?), talvez por não sentir o peso do temor a uma entidade que se crê difícil de agradar. Aprecio a serenidade das pedras e a luz difusa dos vitrais coloridos, revejo na imaginação as passadas lentas de existências que nunca poderemos conhecer. Gosto de me sentar e orar, à minha maneira, sem regras ou obrigações, escrever, pensar, observar, respirar fundo, estar apenas. Estes momentos tornam-se únicos por serem cada vez mais raros. Não faço promessas, sei que não as vou cumprir, não coloco a moeda na ranhura para acender a vela que poderia ser o farol das noites escuras em que perco o rumo. Limito-me a existir, tenho fé mas ainda não sei bem em quê.

Admiro no andar de cima as relíquias. Deixámos há muito de nos espantar com os mistérios naturais e passámos a sofrer pelo brilho ofuscante das pedras e metais preciosos. Nem tudo o que brilha é ouro, por vezes é prata ou diamante. No tecto da sala uma cena vagamente familiar, que melhor forma de angariar crentes que adaptar aquilo em que já acreditavam? Se a arte imita a vida, a religião foi a primeira forma de reciclagem inventada pelo Homem. As serpentes nem sempre são répteis.

Saio da Sé e visito rapidamente a Igreja de Santo António, vazia de noivas mas cheia de turistas; ao lado, um pequeno museu desperta-me a curiosidade, preenchido com todas as variações possíveis e imaginárias de Santos Antónios. Pequeno. Charmoso. Caro q. b. para o tipo de visita, por mais que seja totalmente a favor de ajudar a preservar a história e manter a cultura, assim vou à falência. Desço, o meu olhar é atraído por uma placa discreta, um dia sonhei com um gato roxo, coincidência ou sinal, talvez tenha sido o Santo António, fumo um cigarro e sorrio, enquanto tento apanhar pela lente o eléctrico parado.

Mudança inesperada no registo, da arte sacra passo para a moda e para o design, visita ao MUDE (Museu do Design e da Moda), sediado no antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos da Rua Augusta. No rés-do-chão a menina simpática diz que a mochila fica ali bem guardada, a LC-A vai descansar um pouco, o iPod vai porque sim, a história do séc. XX é contada em vestidos e cadeiras, a cultura pop nasceu da rebelião de visionários; no primeiro andar, exposição sobre cartazes políticos, os tempos mudam mas as expressões nem por isso, dizem sempre o mesmo por palavras que apenas diferem pela língua em que são proferidas, o Arnold é agora um ícone político, o Che fica sempre bem na T-shirt.

Vagueio sem destino pela Baixa. A decadência tem uma beleza que não consigo descrever. Lisboa está a ficar velha, tragam o botox. A fome aperta e quando dou por mim já estou sentado no Sitar, restaurante indiano onde o Taj Mahal convive com a Mona Lisa, kitsch é pouco para descrever o espaço. A comida é razoável, o molho picante é mesmo picante, há algo de remotamente errado no cenário todo mas pouco me importa, fico mais do que o previsto, fumo um cigarro e acabo a minha cerveja (um ponto muito positivo: o indiano é smoker-friendly). No caminho para casa decido tirar os phones, quero aproveitar a cidade com todos os sentidos: a pele aquece com o toque do sol escaldante, o olhar perde-se nas paredes que agora são ruínas, o ruído do quotidiano marca o ritmo dos meus passos, a rua cheira a vidas apressadas, o gosto a molho de iogurte e borrego persiste. A minha alma regenera, apesar do corpo estar cada vez mais dorido.

O final da tarde é passado no Museu do Oriente, gratuito às sextas-feiras a partir das 18h (ufa, algo que não se pague), tesouros do outro lado do mundo repousam em sarcófagos de vidro parcamente iluminados. A organização do espaço podia ser melhorada, é estranho estarmos sempre a saltirar de uma região para outra, sem que haja um fio condutor. Hora de ir embora, o jantar espera no israelita do Martim Moniz, durante esta semana o paladar viajou em primeira classe pelo mundo (contando com o mexicano, indiano e com o japonês que a mana vai preparar no fim-de-semana).

Somos de mundos diferentes, tu e eu, que caminham lado a lado sem nunca se cruzarem. O Simão tem o coração dilacerado e há quem diga que podia ter morrido engasgado com a goma em forma de ursinho.

3 thoughts on “.recuerdos #05

  1. Várias coisas.
    Não creio na necessidade de atribuir nome a crença, religião ou o que quer que seja. Não sinto que seja necessário estereotipar, por ter mais caracteísticas desta ou aquela confissão. Em particular, sendo tu tudo o que és, não te dês nome de grupo.

    Estes textos estão muito bons. És um óptimo crítico, aberto, cínico (!), irónico, impaciente, etc, etc, etc. Andas à procura! E, a partilha dessa procura, é muito bem relatada! Adoro…

    Abraço e promessa de café

  2. Quando me vais dar a honra de fazer um tour em Lisboa para nos maravilharmos perante a decadência do espaço urbano? Tu imortalizas as pedras, eu os rostos.

  3. Temos de arranjar forma de conciliar as nossas agendas!
    Imortalizaremos tudo, não há muito que não passemos a pente fino!

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