.são doze os desejos

Chegámos aquela idade em que remexemos no baú das memórias com saudades dos tempos em que eramos despreocupados. Na mesa surgem segredos inenarráveis, partilhados no secretismo das lembranças juvenis, quem observa de fora apenas pode supôr, este, tenho quase a certeza, irá connosco para a campa. É hora de fechar e de mudar para um espaço que ainda acolha noctívagos demasiado despertos para irem dormir.

Na mesa do lado bebe-se vinho tinto, os olhos param na mulher desconhecida, cobiçada, inatingível. A maturidade serena constrasta sem pudor com uma juventude barulhenta, mergulhada no caos das conversas acerca de vestidos e telemóveis que entoam melodias acompanhadas por vozes que ainda não ganharam o direito à saudade. Os minutos sucedem-se sem nunca contrariarem a sua natureza apressada, o tom dos diálogos altera-se à medida que se trocam argumentos ébrios.

Caminhamos lentamente, há muito que deixámos de ter pressa. No interior, a música é assassinada por vozes desafinadas, trocam-se olhares em busca de uma aceitação silenciosa, uma beata é de novo levada pela brisa da ventoinha camuflada. O dia nascerá em breve. Saio oprimido pelas lembranças e pelo silêncio que teima em não ser quebrado. Caminho com um rumo definido, escolho quebrar as regras e isolar-me da noite, nos meus ouvidos alguém conta uma história, igual à minha, igual a tantas outras – os cenários, assim como as personagens, mudam mas o argumento, embelezado pela multitude de tonalidades, é, no seu âmago, quase sempre o mesmo. Encolho-me na gola do casaco para me proteger de um frio que vem de dentro.

Na última tarde do ano, caminho ao lado de companhias pouco habituais, a mudança de cenário ajuda-me a esquecer, por instantes, a impressão no peito que não passa, enquanto observo as figuras cuja vida está dependente de fios frágeis e mãos habéis. Não seremos apenas e nada mais que meras marionetas? Quando soam as doze badaladas encontro-me numa sala cheia mais só que nunca. Na sucessão natural que são os dias resta-me apenas ser paciente e esperar que o silêncio seja quebrado.

Do ano que passou, fica a dor de cabeça e as histórias que ainda estão por terminar. No ano que começa, existem já novas linhas a preencher o branco das páginas do meu caderno, prólogos de histórias que, de forma inesperada, foram iniciadas sem o consentimento prévio do autor. Na estrada que percorro, as pedras continuam a magoar os meus pés descalços; mas, a pouco e pouco, começo a notar vultos recortados no horizonte longínquo, não meras sombras mas companheiros dispostos a prosseguir o trilho lado a lado com o Caminhante.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s