.camadas

Choque
Caíram como pedras no charco, as palavras do arauto. O inesperado apanha-nos sempre de surpresa, é essa a sua natureza e, lição que aprendi da pior forma, apenas quando aceitamos o nosso papel, neste caminho indefinido que é a vida, podemos existir por inteiro. Ficámos sentados em silêncio, refugiados nos nossos pensamentos, os olhos perdidos no horizonte finito do tampo da mesa, sem nos apercebermos que o mundo continuava a girar. Poupámos as palavras para não dizermos alto e bom som que a verdade, essa, não pode ser evitada. Lado a lado descemos a rua, enquanto as lágrimas que escorriam pelas nossas faces se confundiam com a chuva que fustigava os nossos rostos pesarosos. As horas passaram e os olhares evitavam-se, talvez para que nenhum de nós se entregasse à dor que nos consumia por dentro. A vida continua a fluir pelos nossos corpos enquanto o teu não é mais que uma massa inerte.

Negação
Sabemos que é inevitável mas continuamos a não querer acreditar. Tudo muda tão rápido e sem que nos apercebamos, desaparecem os sorrisos que nos aquecem as maçãs do rosto. Falamos e relembramos mas, teimosos, continuamos a dizer que não é assim, não pode, não é justo. Esperamos, mesmo sabendo que não irá acontecer, que a qualquer momento alguém dirá que é tudo mentira. O reflexo que vejo do outro lado do espelho mostra-me que existem explicações que continuam a não fazer sentido.

Sofrimento
Tudo parece errado, as conversas, as pessoas, os pequenos pormenores que já não interessam. No fundo, a única coisa em que pensamos é em nós mesmos, na dor que sentimos e teima em não passar, egoísta, um ácido nas nossas entranhas que corrói sem parar, alimento para uma alma habituada a viver na escuridão. Os olhos ardem à passagem das lágrimas, sem pudores ao verem um corpo que não é mais que uma carcaça, uma caixa de madeira igual a tantas outras caixas de madeira que cumprem o seu papel soterradas por camadas que as escondem da luz da manhã. Desço a encosta em sozinho e em silêncio, olho uma última vez para a encosta verde onde repousas. A vida fora da tua caixa de madeira continua a fluir e, à medida que o asfalto nos separa de ti, as lágrimas deixam de correr, as conversas fluem para o agora, para as pessoas, nós, os outros, como gostaríamos que tudo fosse tão mais simples. Mas sabemos bem que nunca é.

Aceitação
Viveste segundo os princípios em que acreditavas e por isso serás sempre um exemplo a seguir. Repousas, no alto, envolto pelo verde que tanto adoravas, natureza e tecnologia em harmonia, sempre presentes, sempre vigilantes. As horas trazem consigo as descobertas, as surpresas, os conflitos, os problemas, as soluções, as pessoas que cruzam olhares envergonhados, as ideias que fluem acompanhadas por um crepe, os segredos que se dissipam no fumo dos cigarros, as indecisões tardias de quem continua a escudar-se atrás delas. Olho para trás e vejo a tua figura majestosa parada no meio do trilho. Sorris. As palavras que escuto fazem sentido na distância percorrida pelas memórias. É hora de continuar. Sem medo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s