.borrões

Tenho adjectivos escritos numa folha, por baixo de cores que um dia serão fios de cabelo a brilhar sob o sol ardente. Na página, misturam-se borrões do que podia ter sido e do que ainda está para ser. Os olhos pesam mas resisto à tentação de iludir o cansaço, que me envolve suavemente como costumas fazer nas noites em que a chuva bate levemente, numa janela tão despida como os nossos corpos. Olho em volta e espero, filtro os sons, bato com os dedos no teclado quase imaculado à espera que as palavras comecem a fluir. Lá fora, as nuvens escondem o céu que por vezes é azul.

Há uma angústia que apenas compreende quem cria, que não pode ser colocada em palavras ou imagens, por ser mais que uma representação mas nada mais que isso, conceito que não o é apenas por estar além do entendimento de dois olhos que fixam um ecrã estático ou uma folha de papel. Trocamos palavras num código criado nos sonhos que partilhamos e dos quais não me lembro, não por não querer mas sim por estar além da minha memória, quase a rebentar por excesso de histórias por contar: minhas, dos outros, de quem já passou por mim e de quem ainda está para vir.

Os adjectivos permanecem intactos, imaculados, guardados da pena que lhes dará vida, ao lado das imagens de duas faces copiadas do mesmo molde. Amanhã, talvez, sinta na brisa o teu cheiro e dele nasçam novas memórias para preencher mais uma página em branco.

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