.o comboio

Solta-se no ar a doce fragrância da pólvora que seca numa pele queimada por raspões de balas perdidas. Ao longe, ouvem-se murmúrios, abafados pelos tambores que marcam o passo de quem há muito deixou de acreditar numa fé que teima em não se tornar cadáver. Espero sozinho numa plataforma preenchida por vultos escondidos. Recortado contra o nevoeiro, o comboio espera. Não consigo perceber se está vazio ou cheio, oiço vozes sem ter certeza se não serão mais que ecos de memórias.

Olho em volta, não conheço as pessoas que me rodeiam, paradas a fitar o infinito. Talvez sejam medos antigos vestidos com pele e cabelo, manifestações de um eu passado e esquecido ou nada mais que figurantes cuja função é preencher os espaços vazios para me distrair da angústia que sinto no peito. O comboio continua parado, estará à tua espera? Fecho os olhos e ignoro a sensação de que as paredes se fecham sobre mim, custa-me respirar, falar, mexer. Tento ouvir com atenção as palavras que deixaram de ser pronunciadas, engolidas por um silêncio nascido de barreiras duras como a pedra ancestral.

Num segundo, que parece durar mais que uma vida inteira, dissipa-se o nevoeiro e vejo no reflexo da janela que sou vidro, marcado por imperfeições e preenchido por água onde nadam pequenos peixes em círculo.

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