.vórtice

Sento-me, sozinho, à frente do meu reflexo, não posso deixar de esquecer quem sou e o que um dia poderia ter sido. Várias coisas ocupam a minha mente neste momento, nenhuma permanece tempo suficiente para tomar a forma das palavras. É esse o problema dos pensamentos hoje em dia, viajam demasiado depressa para podermos dizer que algum dia foram nossos. Está calor na caixinha de fósforos, quando a música pára posso ouvir as vozes indistintas de vizinhos que não quero conhecer, as batidas repetitivas que fazem o chão tremer, a porta da rua a abrir. Há uma luz que se acende e penso se será a tua chave que irá fazer rodar o canhão, vejo sombras a passar pela fresta e sei que não, não poderias ser tu, não agora que seguiste pela rua sem olhar uma única vez para trás, sem saber que te segui até desapareceres na esquina do prédio decrépito, onde mora aquela velhinha que almoça e assiste, satisfeita, às novelas da vida real. O som de mil passos microscópicos confunde-se com o da televisão, pela janela, sorrateiros, chegam grunhidos e risos e o barulho do vidro que agora é caco, amanhã a rua vai cheirar a mijo e cerveja e o caco vai virar pó, ser varrido, um dia será de novo vidro, como a parede que nos separou em tempos. Tocar sem sentir. Falar sem ouvir. Boca que encosta mas não beija.

Não consigo dormir. Acordaste-me a meio de um sonho, deparo-me contigo virado do avesso. Talvez seja um acaso ou uma metáfora para o mau-estar que se instalou entre nós. Ris quando te digo que fiquei mal-disposto. Não foi fita, as náuseas foram bem reais, o medo de algo se passar contigo mais ainda. Tento chegar até ti mas pouco a pouco a indiferença que sinto no contacto com o meu toque torna-se difícil de suportar. Tens razão, dei demasiada atenção a pormenores irrelevantes, é-me complicado não o fazer. Nunca irás entender mas há certos tons que magoam mais que berros motivados pela ira. Tens tanto medo que te anule que te defendes da única forma que sabes – é justo, o passado esmaga sempre o presente que poderá deixar de ser futuro.

Nas galerias ecoaram passos dados em silêncio, abafados pelo espanto dos turistas. Disseste-me que se a gruta fosse tua seria diferente. Não sei se entendo ou se sou igual a todas as pessoas, parece-me que já chegaste à tua própria conclusão. Não consigo perceber se haverá alguma razão no meio disto ou sequer se fará diferença, as coisas acontecem por motivos nem sempre claros. Assumes que é algo mais e nada do que diga poderá assegurar-te do contrário, os juízos já foram lançados, é tarde de mais, os muros são tão altos que nem o vento uiva entre eles.

Demasiadas mudanças, pouco tempo para as processar. Espaços. Pessoas. Ruídos. Cores. Cheiros. Tudo é diferente agora, lá fora os grilos deram lugar a bebedeiras barulhentas, as telenovelas são reais e as portas que batem são reflexo de existências perturbadas. Por vezes tenho receio que a porta expluda com um pontapé motivado pela escuridão que preenche os corações vazios. Será que dormias ou apenas fingias para não teres que justificar uma carícia não retribuída? Não importa, estás magoado comigo, eu sei, não agi da melhor forma mas espero que entendas que me esforcei para que as coisas corressem bem. Sozinho não consigo, dizia-te, mas sempre escolheste que as únicas palavras que têm sentido são as que tu, e apenas tu, consideras serem adequadas.

Sonhava com bebida e comprimidos. Será que o meu inconsciente me mostrava de novo a porta que escondi com uma cortina pesada? Li que triunfar sobre a morte desperta em nós as sensações mais intensas que se podem experimentar. Por momentos, senti-me vazio, pensei se a queda seria suficiente. Senti estar a falhar e que a culpa só poderia vir de mim, não das circunstâncias ou do destino. Sou júri, juiz e carrasco de mim mesmo. Lembro-me dum corpo guardado por montanhas e ventoinhas gigantes, porque não fomos trocados? Podia estar a contemplar o mar agora, se me dessem essa oportunidade, a observar para sempre o vai e vem das ondas, a espuma branca a brincar com a areia molhada, a ver as pegadas de amantes secretos a desaparecer lentamente.

Na minha imaginação, oiço a rolha a saltar da garrafa de vinho tinto, plástico e alumínio a estalar. Uma mão cheia, o vinho escorre lentamente pela garganta, pesa quando chega ao estômago. Sento-me e fecho os olhos, acendo um cigarro e inspiro. Expiro e vejo o fumo a brincar com a luz do candeeiro. Passo a passo volto para ti, deito-me no colchão que tanto te magoa e envolvo-te, braços e pernas, encosto o nariz à tua nuca descoberta. Ignoro os berros que vêm da rua, das gargantas de selvagens de outras terras, aperto-te com mais força, mesmo que resistas não te deixarei ir. A consciência dissolve-se em pequenas gotas de memórias perdidas: um raio de sol, um despertar, um presente, um beijo, um toque, dor, perda, lágrimas, desilusões.

Esgotei as palavras, reclamei-me a mim mesmo, sim tenho medo, sim sinto a falta de tantas coisas que uma vida não chegaria para as enumerar; mas foste tu que escolheste acreditar na verdade que formataste para voltares a sentir o mau-estar que te alimenta, mais que nas acções devias ter lido a tua sentença nas intenções, gostas do sabor amargo de uma falsa vitória? Alguma vez pensarás que em vez de nos perderes, serás tu que, mais uma vez e outra e outra, sem parar, irás rodopiar na espiral em que te habituaste a descer, sempre até ao fundo, mais ainda porque ainda não é suficiente. Gostava que um dia te olhasses no espelho sem medo, que aceitasses o reflexo como teu e que, se o passado é assustador, o futuro mais ainda mas poderá ser sempre melhor, basta deixares.

Caminhamos em silêncio por dunas intocadas, as nossas pegadas são varridas pelo vento frio e, a pouco e pouco, tomamos consciência que já fomos e poderíamos ter sido mas, no agora, não somos mais que meros segundos preenchidos por memórias a acarinhar. Já não somos guiados por estrelas brilhantes e luas cheias, no ar sente-se a humidade de lágrimas que caem no silêncio de dois corpos que repousam lado a lado. Há uma encruzilhada no caminho, se seguirmos sempre em frente quem sabe onde iremos dar? Olho para o lado e vejo a tua sombra a entrar numa gruta que surgiu sem aviso, tento impedir-te mas as palavras deixam de ser palavras e da minha garganta apenas nascem grunhidos sem sentido. Sento-me à entrada da gruta e espero, o tempo parou para nós, os segundos são agora dias e anos e milénios, entro com a esperança que ainda te possa salvar mas já decidiste, teremos de saltar juntos para o vórtice negro que criaste como forma de impedir o mundo de chegar até ti, queres que te dê a mão, bem sei, mas não é essa a resposta, porque não ficamos e percorremos juntos a estrada, recordas-te, nunca chegámos a subir à torre de ferro. Há frieza no verde escondido no teu olhar, é agora ou nunca, poderemos ser felizes no vazio, eu e tu, nós, o resultado da soma da equação que criámos, lês no meu olhar a resposta que nunca pensaste ouvir e suspiras, não foi assim que sonhaste, não foi este o desfecho que imaginaste. Escolhes saltar para o vazio e deixar de existir para o mundo, voltas a encerrar-te numa concha de diamante polida pelas mágoas que não consegues apagar. Volto ao meu trilho sem olhar para trás e apercebo-me que, pouco a pouco, a luz de um novo dia começa a pintar o céu e que as nuvens já não escondem incertezas. Quando a manhã chegar voltaremos a ser livres.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s