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Sou um atrasado mental e nunca mais disse nada, não quero perder contacto contigo, pessoas como tu estão à beira da extinção. Tens razão nunca mais disseste nada mas já pensaste que agora pode ser tarde? Para ti, quero dizer, perdido nas tuas incertezas, não concordo com a tua ideia de extinção, pessoas como eu são raras mas como tu há muitas, centradas no seu umbigo e inseguranças, na lama com que se cobrem para que o mundo nunca veja a vossa mediocridade disfarçada.

Sinto-me irrequieto, nervoso, impaciente, agitado, estranho, por vezes à beira do senil, esta lua está muito forte, estou zonzo, os pensamentos vagueiam. À distância, serenas-me o espírito. Sinto-me vulnerável no escuro, fraco, pequeno. Estou nervoso, como te irei reconhecer? Aposto que para ti isto não é assim tão difícil, paralisei, estou deitado sem saber o que fazer, perdi a vontade de comer, o abraço foi fugaz mas soube tão bem, quero mais, quero a sério, quero já, quero para sempre. Estou a tremer, foi uma noite perfeita, faltam-me as palavras, não mudava um único detalhe, digo-te apenas para que saibas, para que também estejas certo da estrada poeirenta que estamos prestes a trilhar.

Estou feliz e sorrio, encontrei-te no acaso do tempo e do espaço e agora estamos aqui, quero mais dias, mais noites, mais, apenas mais, levo-te para os meus sonhos, ainda está em mim a presença do teu sabor, agora que o primeiro beijo passou sonho com o segundo, quando, onde, quantos mais se seguirão nesta eternidade que, bem sabemos, é finita, vamos ignorar esse pequeno pormenor, parece-te bem? Chegaste sem avisar e preencheste os meus vazios, o teu calor derreteu o gelo que me impedia de sorrir, acabei de me deitar mas o teu lugar vazio ainda emana calor e cheiro, obrigado por me acolheres em ti, obrigado pelas palavras que tanto esperei ouvir. Eras a peça que me faltava, és o meu farol, o que sinto é raro e difícil de descrever, talvez seja da tua intensidade ou do brilho da lua que promete dar aos nossos sonhos a tonalidade da prata.

Respiro-te. Beijo-te. Amo-te. Tantas vezes disseste que escolhi acreditar, leio agora as palavras em tempos verbais que me revelam a verdadeira natureza daquilo que agora se torna memória. O mundo devia ser criado à semelhança da perfeição que prometemos procurar quando decidimos unir as nossas almas, guardo as palavras e os momentos em mim, nas memórias, no papel, nas imagens que desfilam no ecrã, na surpresa que marcaste no vidro e que agora desvanece. Preciso de reiniciar o sistema, um dia sonhámos com as sombras escondidas do outro lado do espelho, no País das Maravilhas o banal torna-se sublime, porque é assim, só assim, porque se for preciso mais que isso não é natural, e se não é natural não pode ser verdadeiro. A vida passa à frente dos meus olhos em setas e números e caracteres, deixamos dispersos fragmentos no ecrã estático, dizemos que sim mesmo que seja não, dizemos que amamos mesmo quando não temos a certeza, que choramos quando rimos na mesa do café com amigos, mentimos e voltamos a mentir, como não sabemos qual o caminho viramos à direita, ou à esquerda, ou não viramos, porque não sabemos e não interessa. Encolhemos os ombros e resignamo-nos à nossa sorte, a vida é fodida e difícil, escolhemos acreditar nas verdades fáceis e ficar, estáticos, mudos, inertes num canto escuro de uma casa poeirenta.


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