.blindfold

A cidade adormece a pouco e pouco enquanto a chuva cai sem parar. Ainda não é hora de fechar os olhos e sonhar, o vermelho do copo confunde-se com o tampo da mesa, oiço garras a raspar em tecido que guarda em silêncio palavras e lágrimas, risos e esperança num futuro que deixou de ser quando a porta bateu pela última vez.

Troquei a caixa de fósforos por um cubo de gelo, pelas escadas fui deixando cair poeira e saudade, já não oiço gritos, nem molas velhas a chiar, nem passos apressados pelas escadas que engordam o bicho que gosta de viver no escuro; olhei para trás uma última vez e vi memórias, as minhas e as dos outros, escolhas e histórias que seriam vividas a dois, um carreiro de pimenta para afugentar a formiga trabalhadora, uma dedicatória no vidro que dava para a janela da idosa que lambia os beiços com os dramas de carne e osso.

Ainda não pisei o terraço luminoso mas sei que ele está já ali, à espera.


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