.contagens

#1
Encontro fragmento teus no vazio, o ar congela nos meus pulmões enquanto o tempo abranda a sua marcha, não estás à procura mas sim à espera, talvez de me encontrar de novo e validar a crença que fui, em tempos, a materialização dos demónios que alimentam a compulsão da dor que te move. Há um nó na minha garganta criado pelas palavras que nunca nasceram e que deixo para trás, já não olho, perdi a noção de alguma vez o ter feito.

#2
Dizem que devemos evitar o não. Mas é com o não que recomeço, um não que não é negativo mas apenas uma palavra como outra qualquer que poderia ter escolhido para começar. Não me lembro mais do que era antes de ter visto pela primeira vez os cumes silenciosos que não se vestiram de branco. Chego ao meu destino por um acaso, guiado pela certeza de estar a caminhar na direcção certa. O trinco da porta desliza silenciosamente e a voz deixa de ser apenas voz e ganha forma, às palavras juntam-se sorrisos envergonhados e olhares sorrateiros, o tempo pára e a realidade dissolve-se lentamente.

Criamos os momentos pelas experiências que nos obrigamos a viver. A mala podia não ter sido fechada, a chave não ter rodado, o dia ter nascido noite.

#3
A escuridão embala dois corpos nus banhados pela luz que entra pelas frestas de um estore entreaberto, ao longe os corvos aguardam que a manhã nasça para anunciar as desgraças de um mundo corrupto e decadente, acordamos e sorrimos, sentimos a segurança da nossa concha de marfim forrada a ametista.

Cheiro que inebria, toque que conforta, gosto que se mistura com as memórias de sonhos, registados em pedaços de papel guardados em caixas forradas a seda. Encontro, nas pinceladas de verde que se escondem no teu olhar, a outra metade de um molde que se julgava incompleto.

Paro, escuto e olho, entro no comboio e deixo-me ir, abro a janela e conto as estrelas que agora são poeira, ao longe distingo sombras que dançam em torno de fogueiras, alimentadas com o veneno que corre nas veias de autómatos que se vestem com peles de gente. A marcha torna-se lenta, o mundo deixa de girar e o tempo pára, novamente. A espera termina.

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