.a máquina de secar

Paro de ler, decido deixar as palavras escorrerem nas grelhas amareladas, quando um apito agudo desvia a minha atenção. Acabou o tempo que aqui se compra com moedas sem pátria, que não conhecem cor, religião ou sexo, ou o que quer que seja além do escuro que partilham com o pó dos bolsos empapados pelo suor de mãos impacientes.

Ao longe ouço vozes de crianças que proferem palavras de gente grande, para as quais nada mais existe que uma bola a bater no cimento e o futuro apenas se torna presente quando a voz materna se eleva e chama para jantar. Lembro-me vagamente de ser criança e querer, naquela tarde, escrever contos memoráveis lidos pelos que chamavam à imaginação companhia; a folha, calcada na velha máquina de escrever onde o meu pai redigia as cartas importantes, foi directa para o lixo. A obra, acabada de nascer, longe de ser épica, não era mais que ideias mortas contra o tambor, marcadas a tinta no papel branco. As palavras, escondidas durante anos em folhas coladas guardadas na caixa com tampa de veludo preto, permaneceram minhas e apenas minhas, por sentir vergonha da folha deitada para o lixo. O fracasso, quando sentido cedo na vida, deixa de ser dor e passa a ser desafio.

Deviam inventar uma máquina para dobrar a roupa como se fosse um projecto de arquitectura, à escala de um para dez, onde as lajes e o cimento são letrinhas miudinhas escritas com caneta preta de ponta fina e reservatório transparente. As crianças que gritam e continuam a torturar a bola no cimento não querem saber, é a magia do amor de mãe que lhes põe a roupa no armário e a comida na mesa, enquanto o pai coça os tomates e bebe cerveja e vê a bola; ou talvez seja a mãe que se coça e bebe cerveja e vê a bola, enquanto o pai sonha com uma máquina que dobre a roupa e o deixe ir, sem destino, rumo aos moinhos abandonados nas montanhas altas, para respirar o silêncio e lembrar-se, por dois segundos, no máximo três, ou talvez quatro, se tiver sorte, que um dia sonhou em ser mais que uma parcela de tempo, comprado com moedas no teclado onde se marca o número da máquina que apita sem parar até que alguém abra a porta.


Emiliana Torrini // Heard It All Before

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