.odores

rainy days just make me feel depressed

O mundo emudece enquanto a chuva cai sem parar. Na janela da frente expira-se nicotina e vapor, as ideias evadem-se do papel e as palavras afogam-se na tinta espessa que marca, como um ferro em brasa, a página em branco. Nos fogos do arrependimento eterno reciclam-se promessas, em gotas de cera que alimentam os vapores fétidos dos segredos encarcerados em paredes de tijolos amarelos.

Deixei de ler nas folhas o destino das personagens que mato nas primeiras linhas, gastas pela falta de palavras utilizadas com as ideias dos outros. A amnésia alimenta-se dos sentimentos que se dissipam numa dimensão onde as sombras nascem dos reflexos de espelhos multiplicados no infinito. Há dias em que a cor da esperança é o cinza-escuro do desespero e do desânimo, sofrimento afagado que se confunde com o cheiro de laranjas acabadas de roubar de quintais alheios. Ocultos pelo negrume da noite, os ladrões sorriem e guardam as foices polidas, saboreando sem pressas os gomos sumarentos enquanto vagueiam sem rumo.

Embebo em mim o teu cheiro doce quando acabamos de acordar, pele com pele, olhos nos olhos, sinto o teu gosto e deixo o tempo morrer: os dias são curtos demais para nós. 

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