.bonecas de papel

Flutuo para não pisar as ruas ensanguentadas, onde morrem suspiros esquecidos de quem quer sempre mais. Todos temos corvos guardados na gaveta, ao lado de meias esquecidas que há muito não sentem a areia da praia.

Criar o efémero é um exercício de amor e desapego; reconhecemos as fragilidades quando destruímos algo que não pode ser perfeito. Apenas porque sim. Apenas porque podemos. Apenas porque queremos sentir em nós o frio das agulhas que nos perfuram o coração que verte lágrimas de mel, polvinhadas com canela em pó. Arde sem se ver e deixa um sabor amargo na boca. São negras as músicas que ouvimos, nascidas da podridão sepultada em caixas de madeira que sentem o peso da terra remexida, transformada em lama pelas lágrimas que caem das faces de carpideiras suburbanas.

Peixes em aquários humanos, prolongando a nossa imagem deixando-a viva na cabeça dos outros.

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