.world go round

O vento sussurra as angústias de almas solitárias, emparedadas no esquecimento e na indiferença. Lançam-se palavras no vazio como barro à parede, estática nascida da ansiedade que se forma no peito e reflexo da impaciência de quem se quer fazer ouvir. Estrangulamos o grito e oferecemos aos outros o privilégio de nos ignorar, os sons convertem-se em ruído e paisagem, talvez do silêncio consigamos obter a atenção que desejamos, o que tens?, nada!, porque não dizes nada?, não tenho nada para dizer!, e assim o nada passa a existir e a ser tema de conversa. E, quando estivermos fartos de falar sobre o nada, podemos passar para o tempo. Ou para a política, estado do micro e macrocosmos, tendências da cor segundo o comprimento de onda em vigor. Qualquer tema é válido, desde que não seja importante ou íntimo, que não foque sentimentos, angústias ou dilemas existenciais.

Sabe com quem está a falar?”, questionamos, como se isso realmente importasse ou a vida do outro dependesse disso, ou um pouco de ambos. Há dias em que desejo que o Sol brilhe apenas para mim e que, no auge da sua intensidade, ilumine e aqueça o meu rosto sonolento enquanto deixo, lentamente, que os sentidos reiniciem. Penso se, um dia, não irei acordar e aperceber-me que as paredes encolheram e que, lentamente, estou a ser confinado a um pequeno cubo que vai reaparecer no outro lado do espelho.

O crocitar pára e os melros aguardam, expectantes, enquanto as cores se esbatem e o mundo emudece. Num quarto preenchido pela escuridão permaneço imóvel e deixo-me percorrer pelo toque gélido das memórias que não me pertencem; o vento mudou de direcção, novamente. O Sol deixa de se esconder atrás de nuvens cinzentas mas é tarde demais, restam-nos as túlipas moribundas e pouco mais de cinco minutos para termos a certeza que são as interrogações que fecundam as ideias. Evitamos os olhares e deixamos as conversas fluir, sufocamos os pensamentos até que se anulem e distorcemos infinitamente as banalidades que são as nossas vidas. Somos sempre heróis nas nossas próprias histórias, armados com armadura, espada e escudo, rumo ao moinho mais próximo.

Vindo do nada, um sapo vai saltar na direcção de um pneu e perguntar ao condutor:

“Sabes quem eu sou?”

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