.a lebre e a tartaruga

Não me assusta a solidão. Em tempos, decidi arrumá-la na gaveta, bem engomada e simetricamente dobrada, em prol de abrir espaço para mais um na minha vida. Só eu sei o que custou pois, quem me conhece, sabe que mais cedo enfio a cabeça numa banheira cheia de ácido do que pego num ferro de engomar. Passar a ter um novo algarismo na equação é como um doce néctar, enjoativo e viciante, que nos dá a pior ressaca do mundo quando deixa de estar presente: sente-se falta do prazer da conversa, do toque, do beijo, do cheiro e das pequenas coisas que nos irritam, dos olhares faiscantes, dos gemidos enquanto se fundem pele e sexo e língua, da eterna ansiedade provocada pelo sabor amargo da saudade.

Há quem some ou multiplique o mais um, numa exponencialidade infinita adequada a todos os credos. É-me indiferente, sou um rapaz simples de costumes tradicionais: um é o máximo que estou disposto a adicionar e, mesmo com todo o colorido que reveste as paredes da minha imaginação, não me seduz pensar num manancial de pernas e pêlos e chulé a impregnar os meus lençóis, lavados na máquina grande da lavandaria aqui do bairro.

Não me assusta a solidão, carreguei-a como um fardo anos a fio. Não me quero livrar dela pois, por vezes, sabe-me bem estar imerso a apreciar a tempestade que são os meus pensamentos. Mas a solidão não nos faz sentir mais vivos, não nos dá uma força herculeana capaz de derrubar cem ou mil ou mil milhões de colunas cimentadas nas areias salgadas, não cuida de nós quando a febre nos deixa infantis e estremunhados. Quando um é igual a um, tudo é igual ao seu sinónimo e somos obrigados a viver conformados com a nossa presença, 31 Milhões e 536 segundos, até bater a meia noite e os confettis voarem pelo ar – mesmo quando, à nossa volta, orbitam outros como nós, mais ou menos sós, mais ou menos acompanhados, que, inevitavelmente, carregam também os seus próprios fardos. Quando o relógio pára temos finalmente tempo para rever o que ficou para trás e, quando recomeça a contagem, voltamos a esquecer-nos, preocupados que estamos em chegar à meta antes da tartaruga.

Há dias em que não suporto os outros. Hoje, em especial, é dia em que, não querendo roubar a sabedoria alheia, não me suporto a mim mesmo. 

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