.i de inconveniente

Hoje o dia avizinhava-se igual a tantos outros: o despertador é ignorado umas quantas vezes, os gatos pedincham atenção à porta do quarto, miando e arranhando a porta, a mente está poluída e a meditação matinal, novo hábito que se tenta incutir para pôr ordem ao caos, fica a meio. O pequeno-almoço é tomado e o email verificado. As notícias, que chegam sempre pelo jornal i, mais por hábito que apreciação, quase me fazem cair do banco: junto ao título de um artigo sobre o papel da aspirina no combate ao cancro uma foto bem conhecida por mim, pensada e tirada para ilustrar um texto que outrora escrevi.

Quem me conhece sabe que tenho princípios bem instituídos relativamente à partilha de informação: se gosto, partilho e alimento o sistema; se alguém partilha e gosto, é a minha vez de dar a quem me segue, pelo blog ou redes sociais, a oportunidade de ampliar os seus conhecimentos. Enquanto estudante foi-me incutida a responsabilidade de dar crédito a quem de direito e, utilizando as normas em vigor, sempre me habituei a citar artigos ou citações, sem o receio de ser penalizado por copiar uma frase na íntegra: afinal, se alguém já pensou sobre algo e isso está bem definido, porque haveria eu de distorcer os conhecimentos que me eram transmitidos?

A internet veio mudar a forma como partilhamos a informação. Todos sabemos isso e não será este o lugar onde se reinventará a roda. No entanto, caímos num facilitismo profundo: textos e imagens são copiados sem permissão do autor ou qualquer referência à fonte. Trabalhos inteiros são redigidos utilizando fontes obscuras. Artigos de jornal são ilustrados com fotografias de baixa resolução com uma vaga menção há existência de direitos reservados. E quem tem a reserva dos mesmos? O jornal? O autor? Uma qualquer entidade que ainda não compreendeu bem como mediar estes casos, que se encontram num limbo em que todos querem mas ninguém dá?

A foto podia ter sido publicada sem grande alarido. Bastava que eu me inclinasse mais para o Público ou para o Diário de Notícias ou, porque não, o Correio da Manhã. Sigo o i porque gosto do design do jornal; a edição online deixa muito a desejar, sendo notória a falta de cuidado na transcrição dos artigos, encontrando-se hifenizações herdadas da versão impressa, espaços absurdos que, para quem perceber o mínimo da mecânica dum sistema de gestão de conteúdos, indicam que o copy-paste trouxe consigo código indesejado. Os conteúdos podiam ser melhores mas não envergonham ninguém. Então como é que uma publicação nacional, com presença online, comete um deslize destes? Para mim, com todos os títulos em que me poderia albergar, não é mais que um sintoma de falta de brio profissional e das desculpas inevitáveis das pressões do tempo ou constrangimentos orçamentais. Uma imagem de banco não é muito cara, o tempo de pesquisa e escolha é sensivelmente o mesmo que levou ir ao Google pesquisar por “aspirina”.

Se os meus círculos fossem mediáticos ou ligados às esferas superiores das artes, seria tratado com a mesma irrelevância? Afinal, de onde é que isto vem? De um blog obscuro, onde alguém debita textos invariavelmente assentes em metáforas encerradas em metáforas, não mais que meros exercícios de escrita e exorcismo de demónios interiores ou exteriores, que nem sempre existem senão na imaginação do autor.

Prometi a mim mesmo, há muito tempo atrás, que não iria preocupar-me com o país ou os tumultos da blogoesfera. Percebi qual a direcção que queria seguir e mantive-a, sem pensar duas vezes: afinal, como dizem as boas práticas, se não tens nada de interessante para dizer estás apenas a contribuir para o aumento da estática e do ruído. No outro dia, em jeito de brincadeira, disse a um amigo, com quem muito aprendo acerca destas lides virtuais, que iria apresentar o efeitos especiais como um caso de sucesso, pois nada explica a quarta posição na primeira página do Google que não a persistência numa publicação mais ou menos regular, pois os conteúdos não são tão direccionados que me possa gabar de ter centenas de visitantes, em busca de sabedoria efémera acerca do tópico que aquece os teclados neste preciso momento. Aqui, não se encontram imagens que valem por mil palavras nem receitas merecedoras de estrelas Michelin, apenas despropósitos que não me importo de partilhar, quem sabe levando alguém a pensar um pouco naquele burburinho que se aloja nas zonas da mente que raramente vêem a luz do Sol?

Retiro desta experiência a satisfação de não me ter remetido ao silêncio, mais do que posso dizer da outra parte. A nossa herança é esta: erras, calas-te e esperas que passe. Mas todas as revoluções começam porque um e um só indivíduo dá voz aos medos dos outros. Em Portugal, como me foi dito hoje (pelo autor do Pensamente), resmungamos muito e reclamamos pouco.

P. S.: no preciso momento em que estava a finalizar a revisão do texto, uma amiga chama-me a atenção para este link. Fico lisonjeado pela imagem em questão ser utilizada mas contactei a autora do post para que faça a menção à fonte da mesma pois, após consultar a política de partilha do WordPress, aprendi que os conteúdos nele alojados apenas podem ser partilhados sem consentimento prévio se fizerem, e este ponto é bem delineado, menção à fonte (o que, esperaria eu, seria algo acima de óbvio). 

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