.acto iii

Da minha boca saem palavras que se projectam para o infinito, num diálogo silencioso que tem lugar apenas na minha imaginação. A ansiedade bate no meu peito, avizinham-se mudanças que ainda não descobri se serão tão boas como as vendem. Enfrento os minutos dos dias com um sorriso nos lábios enquanto resisto à vontade de fazer voar os objectos que se dispõem na minha secretária desarrumada.

Compramos, sem pensar, as ilusões do mérito e do reconhecimento através do trabalho árduo e do esforço. Todos os dias são uma luta, desigual, contra oponentes que se elevam acima de nós apenas porque, num papel guardado numa gaveta poeirenta, lhes conferiram benefícios duvidosos, provenientes de um laço que facilmente se quebra. Se há justiça neste mundo esconderam-na muito bem, pois há muito tempo que ninguém lhe põe a vista em cima. As obreiras, fatigadas, suspiram e marcham, num ritmo marcado pelo chicote de rainhas patéticas que há muito perderam o brilho da juventude. Num mundo ideal, há sempre um autocarro desgovernado que limpa do asfalto vermes indesejados.

Perdi, por momentos, a noção de qual o meu papel nesta peça de teatro. Enfadam-me as intrigas palacianas; no entanto, há muito que aprendi que o veneno, no copo de vinho tinto, é sempre despejado com um sorriso.

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