.ausência de cor

Gosto de pensar que no preto da roupa que uso vivem todas as outras cores e que no negativo ganham vida imagens captadas em instantes esquecidos. Abomino a minha caligrafia, deixei de reconhecer as palavras no papel como sendo minhas.

Gosto, também, de imaginar que, a qualquer momento, as pessoas à minha volta se vão levantar e dançar ao som da música que ecoa mais alto que o suposto.

.bullet proof

Deixa de ter som a minha voz. Sucedem-se imagens de futuros que não são mais que um presente inventado por um qualquer mecanismo mental que desconheço.

Será que me estou a deixar corroer pela insatisfação? Será que é apenas um subproduto do cansaço extremo que sinto? A música que ecoa nos meus ouvidos é nova e ajuda-me a concentrar. Talvez o problema seja esse, apenas dar atenção devida à novidade.

Olhar para o curso de água que acompanha o meu percurso acalma-me. Deixo a minha mente vaguear e imagino-me no fundo, isolado do mundo, protegido pela água fria e oculto pela terra em suspensão.

Sou apanhado pela melancolia. A criança que não pára bate no banco para chamar a minha atenção. Gostava que o sorriso que lhe mostro fosse sincero mas está longe disso. O meu íntimo não irradia luz e volto a pensar que talvez se aproxime a altura em que terei de deixar algo para trás. Imagino como seria encontrarem o meu corpo inerte no chão frio de uma casa que só é minha enquanto quiser que a chave rode no canhão. Quantos dias passariam até me encontrarem, quem seria a primeira pessoa a dar o alarme? Será que valeria a pena deixar cartas para as pessoas amadas ou deveria apenas ir, sem mais demoras ou palavras?

Tenho receio que esse vazio que começo a sentir se abra e me consuma por completo. Bang bang you’re dead, hole in your head.