.o som do sonho

Adormeço e renasço. Estou cansado do vazio mas mantenho os olhos abertos, quero ver o mundo coberto por nuvens, cheirar a terra molhada por chuvas primaveris, rodopiar sem soltar pio, agarrar pela cauda a espiral fugidia, lesma pachorrenta salgada pelos temperos do saber, saber amar, ou a mar, se for na praia que nos encontramos de novo. As estrelas dançam ao som de harpas, carcomidas pelo bicho carpinteiro que tem nas patas serradura prateada formada pelas lágrimas de bebés famintos.

Acordo e ainda te sinto. Cheira a loucura o pensamento entranhado que se cola na memória como pastilha elástica, mascada até saber a petróleo, está gasta, já não presta, voa pela janela e acerta na velha, que resmunga do sol e da chuva, má sorte a dela que se esqueceu de comprar bilhete para aquela vida que podia ter sido sua.

São confusas as cores no pôr-do-sol que vem tarde, estranhas as dores que se escondem nas entranhas do ser, que poderia ter sido se tivesse seguido pela porta da esquerda, aquela com a maçaneta reluzente em forma de castigo, sem sentido, beira sem eira, perdido, cego e surdo mas não mudo, a voz sai abafada pela parede acolchoada, nas molduras espreitam vidas paralelas que nunca aqueceram as camas que se pretendem discretas.

Nem sempre me reconheço. O espelho mente-me sem remorsos, a mão desliza pela prata, rebentam bolhas putrefactas e a solidão, sempre a solidão, persegue-me por linhas sorrateiras de palavras guardadas em caixas de cartão, amordaçadas pela incerteza da vergonha juvenil. A perna adormece. Afligem-me as fronteiras criadas por guilhotinas famintas, o tempo dilui a tinta e com elas a memória do som de pele contra pele, abafado por colunas ruidosas de vidas que não são vidas mas existem.

As ideias morrem quando se esgota a curiosidade dos gatos famintos.
O som áspero das páginas folheadas faz-me pensar em fantasmas vingativos.
Cabeças desalinhadas rolam encosta abaixo, cientes da confusão que as preenche. 

.contagens

#1
Encontro fragmento teus no vazio, o ar congela nos meus pulmões enquanto o tempo abranda a sua marcha, não estás à procura mas sim à espera, talvez de me encontrar de novo e validar a crença que fui, em tempos, a materialização dos demónios que alimentam a compulsão da dor que te move. Há um nó na minha garganta criado pelas palavras que nunca nasceram e que deixo para trás, já não olho, perdi a noção de alguma vez o ter feito.

#2
Dizem que devemos evitar o não. Mas é com o não que recomeço, um não que não é negativo mas apenas uma palavra como outra qualquer que poderia ter escolhido para começar. Não me lembro mais do que era antes de ter visto pela primeira vez os cumes silenciosos que não se vestiram de branco. Chego ao meu destino por um acaso, guiado pela certeza de estar a caminhar na direcção certa. O trinco da porta desliza silenciosamente e a voz deixa de ser apenas voz e ganha forma, às palavras juntam-se sorrisos envergonhados e olhares sorrateiros, o tempo pára e a realidade dissolve-se lentamente.

Criamos os momentos pelas experiências que nos obrigamos a viver. A mala podia não ter sido fechada, a chave não ter rodado, o dia ter nascido noite.

#3
A escuridão embala dois corpos nus banhados pela luz que entra pelas frestas de um estore entreaberto, ao longe os corvos aguardam que a manhã nasça para anunciar as desgraças de um mundo corrupto e decadente, acordamos e sorrimos, sentimos a segurança da nossa concha de marfim forrada a ametista.

Cheiro que inebria, toque que conforta, gosto que se mistura com as memórias de sonhos, registados em pedaços de papel guardados em caixas forradas a seda. Encontro, nas pinceladas de verde que se escondem no teu olhar, a outra metade de um molde que se julgava incompleto.

Paro, escuto e olho, entro no comboio e deixo-me ir, abro a janela e conto as estrelas que agora são poeira, ao longe distingo sombras que dançam em torno de fogueiras, alimentadas com o veneno que corre nas veias de autómatos que se vestem com peles de gente. A marcha torna-se lenta, o mundo deixa de girar e o tempo pára, novamente. A espera termina.