.recuerdos #04

{as memórias de 27 de Agosto}

O dia começa no LX Factory, fábrica de ideias com ar trendy, temperada com decadência q. b., o novo urbano redefinido por visões de progresso. A tijoleira e o estuque a cair das paredes são o novo preto. O trajecto de hoje leva-me a Belém, na tentativa de recuperar memórias de uma infância já longínqua, das visitas que permitiam testemunhar a grandeza que já foi Portugal. A viagem de eléctrico decorreu sem grandes incidentes, se não contarmos com a senhora alemã cuja mochila ficou presa na porta; tendo em conta que nunca fui grande adepto de me movimentar em Lisboa de autocarro ou eléctrico, tomo nota que, em viagens futuras, convém inteirar-me das paragens que antecedem a minha, ou arrisco-me a ir parar sabe-se lá onde.

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.recuerdos #03

{as memórias de 26 de Agosto}

Usada como metáfora para a vida, uma subida é sempre um obstáculo difícil de transpor, principalmente porque as mazelas (uma forma poética de me referir às bolhas nos pés, troféus do dia anterior) relembram-me uma velha máxima do Caminhante: usar sempre calçado adequado. Vagueio, sozinho como habitual, pelas ruas de Lisboa, saboreando a liberdade de poder escolher o meu caminho, de parar sempre que me apetece, do silêncio apenas quebrado pelo pedido de um café ou garrafa de água (devia ser interessante andar a falar sozinho por aí, aposto que a minha popularidade aumentava num instantinho). Há algumas desvantagens, claro: de vez em quando, mas só de vez em quando, sinto saudades de uma caminhada acompanhada por risos ou conversas banais.

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.recuerdos #02

{as memórias de 25 de Agosto}

Haverá algo mais lisboeta que beber café na esplanada do Parque a ouvir António Variações? Caminhar sozinho é um estado constante, um dado adquirido que já não refuto. Descubro o mundo em silêncio – ou quase, se não contarmos com a música que marca o ritmo dos meus passos, debitada em decibéis controlados nos meus ouvidos.

O vento acaricia gentilmente o meu cabelo, enquanto observo com atenção o empregado a preparar a esplanada para mais um dia, um casal estrangeiro a consultar um guia de viagens e uma senhora já idosa entretida a ler e sublinhar um livro. A copa das árvores escuda-me da cidade barulhenta, aqui o caos, as buzinas e o som de milhares de passadas, que percorrem apressadas a calçada desnivelada, ficam do lado de fora; aqui o verde domina a vista e rasga, sem medo, o azul do céu e o cinzento do betão.

O silêncio é interrompido por um avião que passa – uma excepção à regra, como tantas outras. Começam a chegar pessoas, a cidade começa a acordar – reconheço a minha deixa para voltar a partir. Sozinho, observo e espero. Penso num rosto que não conheço e que apenas vi em sonhos pouco nítidos. O silêncio da madrugada foi rompido, o mundo acordou, o vento, agora mais forte, fustiga o meu rosto desprotegido e tenta arrancar as folhas do meu caderno.

Banda sonora da caminhada matinal: António Variações, Jill Scott, Justice, The Ting Tings, Chicks on Speed, Tiga.

A Estufa Fria está fechada, terei que voltar em Fevereiro de 2010. No fundo do parque, um velhote exercita-se em tronco nú (mente sã em corpo são?).

(*) Saída imprevista a meio da tarde. As chaves novas não abriam as portas, o telemóvel ficou sem bateria, o carregador esquecido bem longe algures em cima da cama – eis a utilidade das listas, evitam que nos esqueçamos destes pequenos pormenores. Na loja da Nokia as pessoas (eu incluído) esperam impacientes (fica aqui a dica: o atendimento poderia ser bem mais rápido e eficaz se optassem por dividí-lo em geral e técnico). No meio da loja um jovem observa com atenção quem chega, nos seus olhos a curiosidade brilha intensa, quase poderia dizer com laivos de raiva – os olhos nunca enganam e a hipótese de ele estar, simplesmente, com uma grande moca, não é assim tão descabida. Próximo de mim, um homem carregado de perfume barato, receita fatal para espaços fechados em pleno Verão, satura o meu olfacto delicado – mais tarde, a memória olfactiva faz-me reviver a naúsea sentida.