.reality tv

A manhã fria recorda-me o quanto sinto a tua falta. Oiço os passos mudos dos segundos que passam, envergonhados. Tenho medo mas não consigo deixar de seguir em frente. Penso no ano que passou, nas páginas viradas e capítulos encerrados, será este um novo volume ou apenas um prólogo? Chorei ao teu lado lágrimas silenciosas por saber que em mim se encerra a capacidade de te poder magoar; estás longe de mim, para trás fica a azáfama das festas que celebram o nascimento de uma nova esperança para um mundo decadente, ainda é válida, a lista, pontuada por intenções nobres e desejos futuros.

Algures no mundo, uma criança rapa um tacho com olhos de gula e ri, ri como apenas uma criança sabe fazer, um sorriso franco decorado pelo pudim acabado de enformar, um dia irás olhar no espelho e perceber que esse cabelo branco é o primeiro de muitos, que os anos passam e que cada ruga não é mais que uma síntese das histórias em que tiveste o papel principal.

Em breve, deixarei de ter páginas para escrever. O couro e o papel aprisionam na quadrícula fragmentos de ideias ou ideias fragmentadas, registadas no intervalo da vida real de heróis fictícios. O argumento é escrito em tinta negra com caligrafia cuidada e ortografia exemplar. Lá fora tudo acaba bem, meia dúzia de lágrimas vertidas por donas de casas desesperadas por um calor mais humano que o emanado pela cozinheira muda, acabadinha de chegar da loja com a panela milagrosa oferecida pelo marido para purgar a culpa de andar a foder a empregada às terças de manhã. Pausa. Disserta-se sobre o medo de falhar e o quanto custa ser-se tão real, um grande plano mostra-nos os olhos e quase podemos imaginar um pequeno bote à deriva no meio daquele azul tão profundo. Acção, dez segundos parecem uma hora, edita, corta e cola. Pára. Fim do argumento. Piscar de olhos entre clarões e voltamos a uma vida real.

.colmeia

Gostava de compreender o que sussurram as árvores do castelo.
No outro dia sonhei que o meu nariz era uma colmeia. Hoje, sinto o olhar cansado do infinito.
O futuro pertence aos cegos da imaginação, o cinza do céu espelha a minha fadiga.
Por vezes, parece que voltei à caixa de fósforos e continuo a ouvir as vidas alheias que teimam em dar-se a conhecer.

.irregularidades

Dançam, ao som das vozes de defuntos, que um dia foram carne e sangue e suor e cabelo, as letras indistintas. Na rua, brilham estrelas que morrem quando o clique surdo ecoa por quarteirões despidos de conteúdo. Numa mesa igual a tantas outras, irmãs do ferro frio que as pariu sem dor, repousa um pedaço de carne que um dia foi vaca a pastar em verdes prados.

Deixámos de perder tempo a interpretar o tempo. Exaustos, os ponteiros descansam um sobre o outro, meio próximos ou, para quem preferir, meio afastados. Matamos o tempo, pilhamos lentamente a sua essência, domesticando-o sem pudor: deixa de ser decorativo e passa a ser funcional.

Dois objectos, quando diferentes, não podem ocupar o mesmo tempo e o mesmo espaço. São as leis do Universo que regulam as impossibilidades imaginadas.