.camadas

24 01 2010

Choque
Caíram como pedras no charco, as palavras do arauto. O inesperado apanha-nos sempre de surpresa, é essa a sua natureza e, lição que aprendi da pior forma, apenas quando aceitamos o nosso papel, neste caminho indefinido que é a vida, podemos existir por inteiro. Ficámos sentados em silêncio, refugiados nos nossos pensamentos, os olhos perdidos no horizonte finito do tampo da mesa, sem nos apercebermos que o mundo continuava a girar. Poupámos as palavras para não dizermos alto e bom som que a verdade, essa, não pode ser evitada. Lado a lado descemos a rua, enquanto as lágrimas que escorriam pelas nossas faces se confundiam com a chuva que fustigava os nossos rostos pesarosos. As horas passaram e os olhares evitavam-se, talvez para que nenhum de nós se entregasse à dor que nos consumia por dentro. A vida continua a fluir pelos nossos corpos enquanto o teu não é mais que uma massa inerte.

Negação
Sabemos que é inevitável mas continuamos a não querer acreditar. Tudo muda tão rápido e sem que nos apercebamos, desaparecem os sorrisos que nos aquecem as maçãs do rosto. Falamos e relembramos mas, teimosos, continuamos a dizer que não é assim, não pode, não é justo. Esperamos, mesmo sabendo que não irá acontecer, que a qualquer momento alguém dirá que é tudo mentira. O reflexo que vejo do outro lado do espelho mostra-me que existem explicações que continuam a não fazer sentido.

Sofrimento
Tudo parece errado, as conversas, as pessoas, os pequenos pormenores que já não interessam. No fundo, a única coisa em que pensamos é em nós mesmos, na dor que sentimos e teima em não passar, egoísta, um ácido nas nossas entranhas que corrói sem parar, alimento para uma alma habituada a viver na escuridão. Os olhos ardem à passagem das lágrimas, sem pudores ao verem um corpo que não é mais que uma carcaça, uma caixa de madeira igual a tantas outras caixas de madeira que cumprem o seu papel soterradas por camadas que as escondem da luz da manhã. Desço a encosta em sozinho e em silêncio, olho uma última vez para a encosta verde onde repousas. A vida fora da tua caixa de madeira continua a fluir e, à medida que o asfalto nos separa de ti, as lágrimas deixam de correr, as conversas fluem para o agora, para as pessoas, nós, os outros, como gostaríamos que tudo fosse tão mais simples. Mas sabemos bem que nunca é.

Aceitação
Viveste segundo os princípios em que acreditavas e por isso serás sempre um exemplo a seguir. Repousas, no alto, envolto pelo verde que tanto adoravas, natureza e tecnologia em harmonia, sempre presentes, sempre vigilantes. As horas trazem consigo as descobertas, as surpresas, os conflitos, os problemas, as soluções, as pessoas que cruzam olhares envergonhados, as ideias que fluem acompanhadas por um crepe, os segredos que se dissipam no fumo dos cigarros, as indecisões tardias de quem continua a escudar-se atrás delas. Olho para trás e vejo a tua figura majestosa parada no meio do trilho. Sorris. As palavras que escuto fazem sentido na distância percorrida pelas memórias. É hora de continuar. Sem medo.





.e há quem escreva…

22 01 2010

{Escreve a Sara no dois designers algo que a maioria das pessoas deveria ouvir mais vezes na vida. E que tem feito bastante sentido nos últimos tempos…}

(à parte)
“Acho-te uma pessoa mesquinha e falsa e enganadora. Acho que te estás a cagar. Acho-te uma mentira pegada, um ser oco. Tens ciúmes, inveja e uma montanha de intenções mal-direccionadas e pseudo-conselhos zen. Vamos ser amigos? Então não me peças impossíveis. Falar é fácil e é com acções que se fodem os outros. Vezes incontáveis. O amor à bruta só resulta no cinema.”





.um adeus que nunca será um até já

14 01 2010

Todos sabemos que a vida é curta mas teimamos em não o aceitar. O tempo, esse, e também o sabemos, não espera por ninguém, os minutos deixam de ser minutos antes mesmo de terem tempo para se aperceberem que existem. Combinámos uma vez que iríamos jantar, falar, rir. A oportunidade passou porque há sempre alguma coisa que impede, marcamos para outro dia, ligo-te, está bem. Só quando já é tarde é que percebemos que esse dia não chegará.

Acreditaste em mim, um dia, mais que eu em mim mesmo, viste um potencial que não reconhecia, uma força num olhar que se estava a apagar. A vida, essa, era discutida de forma acesa e apaixonada, por não saberes ser de outra forma, por não saberes vivê-la sem a intensidade que lhe devemos dar, com os defeitos e virtudes que a tua humanidade te conferiu.

A tua luz apagou-se repentinamente e talvez por isso custe tanto, a mim e a todos aqueles cujos caminhos se cruzaram com o teu. Não voltarei a ouvir-te falar dos teus projectos para tornar o mundo melhor, as tuas frases mirabolantes, chamares-me “o meu mái velho” porque um dia acharam que tinhas idade suficiente para ser meu pai. Talvez tenham razão e do alto nos estejas a observar, ou não, do pó vieste e ao pó retornas, mas as memórias que guardo irão perdurar mesmo quando eu próprio já tiver partido. Na camisola, o pin com o Kafka testemunha a atenção que deste aos pequenos pormenores, em filme, zeros e uns ficam registadas as tuas imagens.

Adeus, Edu, se o descanso for o fim que nos espera, que o teu seja eterno; se houver uma nova vida para além desta, que nos voltemos a encontrar.

{08/09/1973 ~ 13/01/2010}